Hoje, ao
celebrarmos a memória dos Santos Protomártires da Igreja de Roma, cabe a nós uma
reflexão, que se torna muito atual: estaremos, nós, cristãos, sofrendo nos
tempos atuais perseguição, por motivos de nossa fé? Uma resposta a esta pergunta
de grande gravidade mostra-se de resposta bastante complexa. É claro que a
resposta se torna mais fácil quando o nosso olhar se volta para algumas partes
do mundo, onde milhares de cristãos estão sendo dizimados, tendo suas Igrejas
queimadas, sendo sequestrados, massacrados e muitas vezes mutilados ou até
mesmo mortos, simplesmente pelo fato de serem cristãos. Mas... e aqui?
Vivemos em
um país onde a liberdade religiosa é assegurada pela Constituição e temos plena
liberdade de culto. Ontem mesmo pudemos ir às ruas celebrar o nosso Padroeiro,
São Pedro, com a presença de autoridades civis e militares, além do apoio
logístico do Poder Público, para que a Festa ocorresse de forma tranquila e
segura. Então, a resposta é bastante tranquila... não somos perseguidos... Mas,
será que é assim mesmo?
A liberdade
religiosa é, de fato, uma realidade. Entretanto, é imperativa a constatação de
que, embora o nosso país seja formado por um povo profundamente religioso, os
tempos atuais estão totalmente contagiados por uma mentalidade secularizada,
que vai, aos poucos, corroendo os valores mais profundos da vida humana e
social, que foram sendo cultivados ao longo de séculos de tradição cristã. A
negação desses valores fundamentais da vida humana coloca em risco a própria
existência digna das pessoas, que deixam de ser vistas de um modo global,
passando a ser tratadas apenas como peças numa engrenagem totalmente
desumanizadora. Uma compreensão do ser humano sob este ponto de vista
secularizado, levado a extremos, permite e até mesmo provoca o aparecimento de
ideologias como o Nazismo e outras do mesmo nível, que foram e são causadoras
de dor, sofrimento e morte.
A busca de
conforto, alimento e saúde deve ser levada muito a sério. Todas as pessoas têm o
direito a esses elementos para que encontrem a felicidade e a plena realização.
Os planos de governos, bem como nossas instituições devem buscar servir
especialmente aqueles que estão em situação de vulnerabilidade. Inclusive, é
bom constatar, a Igreja Católica, desde as suas origens, sempre teve um cuidado
muito especial pelos mais desfavorecidos. Porém, de nada adianta oferecer os
confortos necessários para quem deles necessita se não oferecermos, também, o
conforto da fé. Uma pessoa que vive numa situação limite de grave enfermidade
ou avançada idade precisa do cultivo da sua fé para poder enfrentar os desafios
que essa situação impõe, pois sem a fé, o que resta senão o desânimo, a
desesperança e até mesmo o desespero? As sociedades mais desenvolvidas, seja no
uso da tecnologia, seja no alto nível de vida social e econômica são as que têm
os mais altos índices de suicídio, justamente porque as pessoas não cultivaram
os valores espirituais, que dão sentido último à existência.
Portanto, a
mentalidade secularizada não consegue compreender a importância da experiência
da fé na vida das pessoas, especialmente naquelas que se encontram em situações
limites. Nessa mentalidade, o trabalho da Igreja é visto como um entrave, que
deve ser descartado. Somos olhados com certa desconfiança e uma fria
indiferença. Talvez não sejamos mais torturados ou mortos e, portanto, não
podemos nos considerar perseguidos. Mas a indiferença torna-se pior que a
perseguição, pois impede qualquer forma de diálogo em vista da contribuição que
o Cristianismo tem a oferecer na vida de tantas pessoas.











