Casório

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terça-feira, 11 de agosto de 2020

O PERIGO DO CRISTIANISMO ASSÉPTICO

            “Aproximou-se dele um leproso, suplicando-lhe de joelhos: ‘Se queres, podes limpar-me’. Jesus compadeceu-se dele, estendeu a mão, tocou-o e lhe disse: ‘Eu quero, sê curado’. E imediatamente desapareceu dele a lepra e foi purificado”. (Mc 1,40-42). O episódio, narrado pelos três Evangelhos Sinóticos, apresenta para nós, cristãos neste tempo de pandemia, desafios que são tremendos para a nossa espiritualidade e ação apostólica.

Começaremos olhando para o texto proposto. Aproximou-se de Jesus um leproso. A lepra, uma enfermidade de pele era até o século passado incurável e extremamente contagiosa. Os leprosos eram afastados de toda a convivência social, até mesmo de sua família. No judaísmo, os leprosos eram vistos como pecadores castigados por Deus, carregando um estigma terrível diante de toda a sociedade. Todos fugiam quando aparecia um leproso por perto. Quem tivesse um contato com um leproso era considerado impuro pelas regras judaicas, precisando passar por um complicado processo de purificação. O leproso do Evangelho se aproxima de Jesus. Essa aproximação mostra uma postura de fé e confiança dele em Jesus, que aceita a aproximação e entabula um diálogo com ele. Vejam: Jesus não segue os rígidos protocolos do judaísmo. Pelo contrário, Ele vai totalmente na contra-mão daquilo que era considerado o certo: ele deixa o enfermo se aproximar dele; estende a sua mão e toca no leproso. Jesus se torna impuro pelos rígidos protocolos judaicos. Nesse episódio, gosto sempre de frisar, acontece uma verdadeira permuta, uma troca: Jesus pega para si a impureza do leproso, carregando consigo a culpa moral e religiosa por haver tocado nele, e o leproso recebe de Jesus a cura, a saúde e a sua dignidade... enfim, a salvação que lhe é oferecida.

Não é interessante perceber as semelhanças entre o que o Evangelho nos propõe e aquilo que estamos vivendo? Não temos mais a lepra a nos amedrontar, pois hoje é uma doença perfeitamente curável, a hanseníase. Porém, com a chegada do novo coronavírus e o advento da COVID-19, passamos a nos ver uns aos outros como possíveis “leprosos”, pois podemos contagiar facilmente os demais com esse vírus terrível. O afastamento social nos colocou dentro de casa, como se nossos lares fossem verdadeiros leprosários. Os rituais de purificação com álcool em gel, com as máscaras e todos os protocolos em nada ficam a dever aos rituais judaicos do Antigo Testamento. Fica a pergunta: se fosse hoje, como agiria Jesus diante dessa situação?

Para evitar o contágio pelo coronavírus, todos os cuidados são necessários. Vivemos um tempo em que o afastamento social exigiu o fechamento de nossas igrejas e templos, num verdadeiro “lockdown eclesial”. Passamos a assistir as Missas e demais cultos religiosos na segurança de nossas casas e no conforto de nossas redes sociais. Durante a quarentena isso se tornou uma necessidade, é preciso reconhecer e de certa forma agradecer a Deus por essa possibilidade. Porém, isso esconde um perigo terrível...

O perigo que essa situação esconde consiste em descobrir a possibilidade de um “cristianismo virtual”, seguro e totalmente sem riscos, um cristianismo totalmente asséptico, limpo de toda a impureza, totalmente esterilizado... e totalmente estéril! Este é um cristianismo onde é rasgada esta passagem da Bíblia, pois não se admite um Cristo que toque no leproso e que vá ao encontro das mais terríveis misérias humanas. Passamos a ser “católicos de Facebook”, achando que para ser um bom fiel basta “seguir” perfis religiosos, compartilhando mensagenzinhas bonitinhas e escrevendo amém depois de cada uma delas. Isso pode ser até bonito e terapêutico nessas circunstâncias, mas pode trazer o risco de nos jogar numa vivência cristã totalmente superficial (“quem concorda, escreve amém e compatilha”, kkkkk).

Nos dois mil anos de cristianismo tivemos muitos exemplos bonitos de cristãos que não foram nada assépticos e esterilizados: São Francisco de Assis, que beija o leproso, São Luís Gonzaga, que morre de peste por atender os enfermos numa pandemia em Roma, São Damião de Molokai, que entrega a sua vida atendendo os leprosos numa ilha no Havaí... Muitas vezes, a santidade e assepsia não andam juntos, como podemos perceber...

Precisamos ter todos os cuidados, reconheço. Não podemos, porém, deixar que o medo paralise nossa ação pastoral e evangelizadora. Ao reabrir nossas igrejas, queremos dar o testemunho de que nossa fé é maior que o medo e que o cuidado pela vida (manifestado nos protocolos que estamos seguindo de sanitização, o que torna nossas igrejas totalmente seguras) também deve ser cuidado pela fé e pela vida espiritual, o que garante saúde física e mental para o nosso povo.

Muito pior do que o coronavírus é o vírus de um cristianismo estéril, acomodado, formado por cristãos isolados, fechados em si mesmos e que não sentem falta da comunidade, preferindo uma relação fechada com Deus e bem longe do outros, porque os outros são perigosos... Não permitamos que esta pandemia atinja também a nossa vida cristã e eclesial. Por enquanto, são necessários certos cuidados, mas não permitamos que essa situação totalmente atípica se torne comum em nossa Igreja.

A SANTIDADE ESCONDIDA

  Hoje a Igreja celebrou o glorioso São Pio de Pietrelcina, o mais famoso santo do século XX, marcado com os estigmas da Paixão do Senhor e ...