O amor ao próximo na Comunidade Eclesial
1.
“Homem algum é uma ilha”. Esta frase famosa,
do monge Thomas Merton, expressa uma das características fundamentais do ser
humano: o fato de sermos seres comunitários. Entre a herança que recebemos do
nosso Pai-Deus está esta necessidade de complementação. Somos seres
complementares e a nossa realização se dá dentro desta característica tão
importante.
2.
Jesus assume toda a realidade humana para
redimi-la. Inclusive a realidade da família, da comunidade, do agrupamento.
Vive com José e Maria como uma pequena comunidade doméstica. Participa dos atos
comunitários da fé judaica, como a participação aos sábados, das atividades da
Sinagoga ou até mesmo a ida em Peregrinação ao Templo de Jerusalém. Ao começar
a sua vida pública, Jesus forma um pequeno grupo de doze homens, seus
discípulos, que deixam tudo para segui-lo. A este grupo somam-se inúmeras
pessoas, homens e mulheres, que convivem com Ele e aprendem com seus
ensinamentos.
3.
Portanto, a novidade que o Cristianismo
aprendeu de seu Mestre consiste no fato de ser uma proposta de religião
profundamente comunitária, superando laços de consanguinidade, bem como de
pátria ou cultura. Pela primeira vez na história da humanidade, religião não se
confunde com laços estranhos à fé. O Cristianismo é uma religião universal,
formada por comunidades de pessoas fieis a Jesus Cristo e à sua proposta de
vida.
4.
A comunidade dos primeiros discípulos tornou-se
a primeira experiência concreta da proposta de vida de Jesus. Ali, ainda nos
primeiros dias após Pentecostes já procuravam vivenciar o Evangelho na prática
comunitária, dando especial atenção aos mais pobres e necessitados, repartindo
entre si os seus bens (cf. At 2,45). Logo surge a instituição dos diáconos,
para o serviço às mesas, especialmente dando atenção aos órfãos e viúvas, que
eram os mais pobres entre os pobres (cf. At 6,1-6).
5.
O amor praticado entre os primeiros cristãos
acontecia ao natural, uma vez que na comunidade todos estavam cheios do
Espírito Santo. Aqui encontramos o segredo do sucesso estrondoso da primitiva
comunidade eclesial: o Espírito Santo. Se Deus é amor, o cristão e a comunidade
cristã, animados pelo Espírito de Deus, terão no seu DNA o amor. A comunidade
se torna, então, o local privilegiado de treinamento do Mandamento Novo de
Jesus, o “amai-vos como eu vos amei” (Jo 15,12).
6.
“A Igreja-comunidade é ícone da Trindade”.
Este foi o tema da minha dissertação de Mestrado. O que significa ser ícone? Na
Teologia e espiritualidade do Oriente, o ícone é uma representação de alguém
através de uma pintura. É mais do que uma pintura ou imagem religiosa para nós,
no Ocidente. Não chega a ser uma presença real, como no caso da Eucaristia, mas
é uma certa “forma” de presença espiritual. Inclusive, a elaboração de um ícone
requer um caminho espiritual feito pelo autor. Quando afirmamos que a Igreja é
ícone da Trindade, estamos dizendo que ela traz em si a característica da
Trindade, enquanto Mistério de Comunhão e Amor. Esta característica não provém
do esforço humano que fazemos, mas é dom de Deus e ação do Espírito Santo,
enquanto Alma da Igreja. Por isso o ser comunidade não é algo apenas
“institucional” na vida da Igreja, mas faz parte do seu ser e da sua vocação.
7.
Por isso, naturalmente, em nossas
comunidades vivemos o Mandamento Novo do Amor. E, se não estivermos vivenciando
isso, então deveríamos fazer um sério exame de consciência para podermos pedir
perdão a Deus pelo nosso fechamento à ação da sua Graça e do seu Espírito. Sem
o Mandamento do Amor vivenciado, nós nos tornamos uma instituição morta, uma
ONG piedosa, um corpo sem alma, um defunto-vivo... Por
isso, é fundamental voltarmos ao Cenáculo com Maria, Mãe da Igreja, para pedirmos
a Graça de um Novo Pentecostes em nossa Paróquia e comunidades, a fim de que o
Mandamento Novo se torne algo que naturalmente vivenciamos, tornando-nos,
assim, um modelo de vida para o povo que mora ao nosso redor e que, olhando
para nós, possa dizer: “Vede como eles se amam”!

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