Casório

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segunda-feira, 5 de junho de 2017

Meditação 7

MEDITAÇÃO 7
“Eles já não têm vinho... Fazei o que Ele vos disser.” (Jo 2, 3.5)

1.      Não poderíamos concluir este nosso Retiro sem uma meditação sobre o papel de Maria na História da Salvação e na nossa própria história pessoal. É impossível falar de sacerdócio sem a Mãe dos Sacerdotes. Desde a minha Ordenação Presbiteral, em 1991, tenho rezado uma pequena e simples jaculatória, que repito após cada mistério do terço: “Nossa Senhora, Mãe dos Sacerdotes, fazei de mim um santo sacerdote!” Esta pequena jaculatória expressa, de um modo quase infantil, um bonito e singelo amor para com a Mãe de Deus, que foi sendo cultivado desde a minha infância. Se nós somos aquilo que comemos e, pela Eucaristia, somos transformados em “outros Cristos”, pelo cultivo de uma espiritualidade mariana vamos sendo por ela moldados em discípulos missionários do seu Filho.
2.      Gostaria de convidar para esta nossa Meditação uma figura que sempre foi importante na minha história: o Pe. José Kentenich. Não pretendo aqui fazer uma “apologia” à espiritualidade de Schoenstatt, mas alguns de seus elementos são muito interessantes para a nossa vida e ministério presbiteral. O primeiro elemento é a dimensão da Aliança. A aliança, feita pelo Pe. Kentenich e seus seminaristas, no distante 18 de outubro de 1914, está ligada à Aliança de Deus com a humanidade, inicialmente feita entre Javé e Abraão e depois reafirmada por meio de Moisés com todo o povo de Israel. Esta Aliança é de mútuo amor e fidelidade. Javé sempre foi fiel; já Israel... Em Jesus, esta Aliança é retomada de forma definitiva. Pelo Batismo, esta Aliança eterna e nova chega até nós. A Aliança de Amor feita com a Mãe de Deus está a serviço da aliança batismal e nos ajuda a viver bem como filhos de Deus. Para o Pe. Kentenich, Maria é a grande Pedagoga, que nos ensina o caminho da fidelidade a seu Filho, Jesus. No quadro da Mãe Rainha, ela aparece com o Menino Jesus nos braços, como que nos apresentando aquele que é o Caminho, a Verdade e a Vida[1]. Também, ali, ela nos mostra qual é o nosso lugar, como filhos seus: juntamente com Jesus, o nosso lugar é nos braços da Mãe.
3.      O segundo elemento de Schoenstatt a destacar é a ideia do Santuário. Para entendermos a espiritualidade de Schoenstatt nesse quesito, é bom lembrar que ali não aconteceu nenhuma revelação particular, seja alguma aparição ou o encontro miraculoso da imagem. Simplesmente, no dia 18 de outubro de 1914, o Pe. Kentenich e seus seminaristas convidaram Maria para que “habitasse” espiritualmente aquela pequena capelinha e fizesse ali um lugar de graças e bênçãos. E Maria aceitou o convite! Existe um pequeno livro do Pe. Kentenich, que possui como título: “Meu coração – teu santuário”. Aqui, de novo, é bom lembrar que o nosso coração sacerdotal deve ser um santuário, onde Maria pode, com o seu Filho, habitar. E, quando o nosso coração torna-se este santuário, nós passamos a aprender, com Maria, a fazer em tudo a vontade de Deus. E como é importante e fundamental o cultivo dessa presença feminina na nossa vida, pois vai provocar em nós o surgimento de uma sensibilidade e acolhida afetuosa, que só as mulheres podem ter. Quando cultivada essa presença de Maria, nós deixamos de ser solteirões com atitudes neuróticas e quase que totalmente incapacitados para amar e acolher os outros.
4.      O ser santuário de Deus consiste nesta abertura nossa ao Espírito Santo, que vai nos conduzindo a uma sempre maior semelhança com Jesus, de tal modo que toda a nossa vida fique marcada por isso. Assim escreve o Pe. Kentenich: “A vida no Santuário do meu coração deveria ser uma vida de permanente Ofertório, Consagração e Comunhão. Esta é a vida de uma pessoa que realmente vive em seu Santuário.” É preciso ter sempre presente que a vida e o ministério do presbítero deve ser totalmente consagrado a Deus, por meio de Maria, que vai conduzindo os seus filhos no Caminho do seu Filho. Como nas Bodas de Caná, ela é intercessora. Assim nos ensina o Concílio Vaticano II: “(Maria)Cuida, com amor materno, dos irmãos de seu Filho que, entre perigos e angústias, caminham ainda na terra, até chegarem à pátria bem-aventurada”.
5.      A devoção mariana é, também, um poderoso antídoto contra uma mentalidade “adulta”, muitas vezes presente na nossa vida e ministério. Esta mentalidade adulta tira de nós toda uma postura quase que infantil, que ajuda a preservar a simplicidade própria das crianças, assim como a confiança filial.  Não significa imaturidade afetiva ou espiritual; pelo contrário, a imaturidade consiste em sermos tão autônomos diante de Deus, que queremos nos colocar no seu lugar, achando que nos bastamos a nós mesmos. Quanto mais autônomo o ser humano se acha diante de Deus, mais trágicas são as consequências dessa pretensa autonomia.
6.      É preciso aprendermos a “arte” da infância espiritual, que a presença materna de Maria provoca em nós. Essa graça eu peço cada vez que vejo a alegria de nosso povo nos Santuários e procissões marianas mundo afora. Quando vejo as nossas velhinhas rezando piedosamente o seu terço ou pagando suas promessas, percebo quão grande estrago essa mentalidade “adulta” fez e faz na minha vida, nas nossas vidas de presbíteros, que deveriam se emocionar ao cantar “Mãezinha do céu” ou ao desfiar as contas do Rosário.
7.       Essa postura da simplicidade filial abre-nos às três graças do Santuário, que considero fundamentais à nossa vida cristã e presbiteral: a graça do acolhimento espiritual, ou seja, de sentirmos que somos acolhidos e amados por Deus; a graça da transformação interior, ou seja, de deixarmos que Maria seja a nossa Mãe e Educadora na fé; a graça da fecundidade apostólica, a de sermos instrumentos nas mãos de Deus, para que o mundo seja evangelizado.
8.      Por isso, vamos retornar às fontes de nossa vida cristã e às expressões religiosas marianas que aprendemos ainda na nossa infância e que nos animaram na nossa caminhada de fé e de vocação. Vamos reaprender a rezar o terço com a mesma confiança filial de antigamente e redescobrir a devoção à Nossa Senhora que mais fala ao nosso coração. Isso vai fazer de nós presbíteros mais amáveis, mais profundos, mais acolhedores.

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