“Eles já não têm vinho... Fazei o que Ele vos disser.” (Jo 2, 3.5)
1.
Não poderíamos concluir este nosso Retiro sem uma meditação sobre o
papel de Maria na História da Salvação e na nossa própria história pessoal. É
impossível falar de sacerdócio sem a Mãe dos Sacerdotes. Desde a minha
Ordenação Presbiteral, em 1991, tenho rezado uma pequena e simples jaculatória,
que repito após cada mistério do terço: “Nossa Senhora, Mãe dos Sacerdotes,
fazei de mim um santo sacerdote!” Esta pequena jaculatória expressa, de um modo
quase infantil, um bonito e singelo amor para com a Mãe de Deus, que foi sendo
cultivado desde a minha infância. Se nós somos aquilo que comemos e, pela
Eucaristia, somos transformados em “outros Cristos”, pelo cultivo de uma
espiritualidade mariana vamos sendo por ela moldados em discípulos missionários
do seu Filho.
2.
Gostaria de convidar para esta nossa Meditação uma figura que sempre
foi importante na minha história: o Pe. José Kentenich. Não pretendo aqui fazer
uma “apologia” à espiritualidade de Schoenstatt, mas alguns de seus elementos
são muito interessantes para a nossa vida e ministério presbiteral. O primeiro
elemento é a dimensão da Aliança. A aliança, feita pelo Pe. Kentenich e seus
seminaristas, no distante 18 de outubro de 1914, está ligada à Aliança de Deus
com a humanidade, inicialmente feita entre Javé e Abraão e depois reafirmada
por meio de Moisés com todo o povo de Israel. Esta Aliança é de mútuo amor e
fidelidade. Javé sempre foi fiel; já Israel... Em Jesus, esta Aliança é
retomada de forma definitiva. Pelo Batismo, esta Aliança eterna e nova chega
até nós. A Aliança de Amor feita com a Mãe de Deus está a serviço da aliança
batismal e nos ajuda a viver bem como filhos de Deus. Para o Pe. Kentenich,
Maria é a grande Pedagoga, que nos ensina o caminho da fidelidade a seu Filho,
Jesus. No quadro da Mãe Rainha, ela aparece com o Menino Jesus nos braços, como
que nos apresentando aquele que é o Caminho, a Verdade e a Vida[1].
Também, ali, ela nos mostra qual é o nosso lugar, como filhos seus: juntamente
com Jesus, o nosso lugar é nos braços da Mãe.
3.
O segundo elemento de Schoenstatt a destacar é a ideia do Santuário.
Para entendermos a espiritualidade de Schoenstatt nesse quesito, é bom lembrar
que ali não aconteceu nenhuma revelação particular, seja alguma aparição ou o encontro
miraculoso da imagem. Simplesmente, no dia 18 de outubro de 1914, o Pe.
Kentenich e seus seminaristas convidaram Maria para que “habitasse”
espiritualmente aquela pequena capelinha e fizesse ali um lugar de graças e
bênçãos. E Maria aceitou o convite! Existe um pequeno livro do Pe. Kentenich,
que possui como título: “Meu coração – teu santuário”. Aqui, de novo, é bom
lembrar que o nosso coração sacerdotal deve ser um santuário, onde Maria pode,
com o seu Filho, habitar. E, quando o nosso coração torna-se este santuário,
nós passamos a aprender, com Maria, a fazer em tudo a vontade de Deus. E como é
importante e fundamental o cultivo dessa presença feminina na nossa vida, pois
vai provocar em nós o surgimento de uma sensibilidade e acolhida afetuosa, que
só as mulheres podem ter. Quando cultivada essa presença de Maria, nós deixamos
de ser solteirões com atitudes neuróticas e quase que totalmente incapacitados
para amar e acolher os outros.
4.
O ser santuário de Deus consiste nesta abertura nossa ao Espírito
Santo, que vai nos conduzindo a uma sempre maior semelhança com Jesus, de tal
modo que toda a nossa vida fique marcada por isso. Assim escreve o Pe.
Kentenich: “A vida no Santuário do meu
coração deveria ser uma vida de permanente Ofertório, Consagração e Comunhão.
Esta é a vida de uma pessoa que realmente vive em seu Santuário.” É preciso ter sempre presente que a vida e o ministério do presbítero deve ser
totalmente consagrado a Deus, por meio de Maria, que vai conduzindo os seus
filhos no Caminho do seu Filho. Como nas Bodas de Caná, ela é intercessora.
Assim nos ensina o Concílio Vaticano II: “(Maria)Cuida, com amor materno, dos irmãos de seu
Filho que, entre perigos e angústias, caminham ainda na terra, até chegarem à
pátria bem-aventurada”.
5.
A devoção mariana é, também, um poderoso antídoto contra uma
mentalidade “adulta”, muitas vezes presente na nossa vida e ministério. Esta
mentalidade adulta tira de nós toda uma postura quase que infantil, que ajuda a
preservar a simplicidade própria das crianças, assim como a confiança filial. Não significa imaturidade afetiva ou
espiritual; pelo contrário, a imaturidade consiste em sermos tão autônomos
diante de Deus, que queremos nos colocar no seu lugar, achando que nos bastamos
a nós mesmos. Quanto mais autônomo o ser humano se acha diante de Deus, mais
trágicas são as consequências dessa pretensa autonomia.
6.
É preciso aprendermos a “arte” da infância espiritual, que a presença
materna de Maria provoca em nós. Essa graça eu peço cada vez que vejo a alegria
de nosso povo nos Santuários e procissões marianas mundo afora. Quando vejo as
nossas velhinhas rezando piedosamente o seu terço ou pagando suas promessas,
percebo quão grande estrago essa mentalidade “adulta” fez e faz na minha vida,
nas nossas vidas de presbíteros, que deveriam se emocionar ao cantar “Mãezinha
do céu” ou ao desfiar as contas do Rosário.
7.
Essa postura da simplicidade
filial abre-nos às três graças do Santuário, que considero fundamentais à nossa
vida cristã e presbiteral: a graça do acolhimento espiritual, ou seja, de
sentirmos que somos acolhidos e amados por Deus; a graça da transformação
interior, ou seja, de deixarmos que Maria seja a nossa Mãe e Educadora na fé; a
graça da fecundidade apostólica, a de sermos instrumentos nas mãos de Deus,
para que o mundo seja evangelizado.
8.
Por isso, vamos retornar às fontes de nossa vida cristã e às expressões
religiosas marianas que aprendemos ainda na nossa infância e que nos animaram
na nossa caminhada de fé e de vocação. Vamos reaprender a rezar o terço com a
mesma confiança filial de antigamente e redescobrir a devoção à Nossa Senhora
que mais fala ao nosso coração. Isso vai fazer de nós presbíteros mais amáveis,
mais profundos, mais acolhedores.

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