“Aproximou-se dele um leproso, suplicando-lhe de joelhos: ‘Se queres, podes limpar-me’. Jesus compadeceu-se dele, estendeu a mão, tocou-o e lhe disse: ‘Eu quero, sê curado’. E imediatamente desapareceu dele a lepra e foi purificado”. (Mc 1,40-42). O episódio, narrado pelos três Evangelhos Sinóticos, apresenta para nós, cristãos neste tempo de pandemia, desafios que são tremendos para a nossa espiritualidade e ação apostólica.
Começaremos
olhando para o texto proposto. Aproximou-se de Jesus um leproso. A lepra, uma
enfermidade de pele era até o século passado incurável e extremamente contagiosa.
Os leprosos eram afastados de toda a convivência social, até mesmo de sua
família. No judaísmo, os leprosos eram vistos como pecadores castigados por Deus,
carregando um estigma terrível diante de toda a sociedade. Todos fugiam quando
aparecia um leproso por perto. Quem tivesse um contato com um leproso era
considerado impuro pelas regras judaicas, precisando passar por um complicado processo
de purificação. O leproso do Evangelho se aproxima de Jesus. Essa aproximação
mostra uma postura de fé e confiança dele em Jesus, que aceita a aproximação e
entabula um diálogo com ele. Vejam: Jesus não segue os rígidos protocolos do
judaísmo. Pelo contrário, Ele vai totalmente na contra-mão daquilo que era
considerado o certo: ele deixa o enfermo se aproximar dele; estende a sua mão e
toca no leproso. Jesus se torna impuro pelos rígidos protocolos judaicos. Nesse
episódio, gosto sempre de frisar, acontece uma verdadeira permuta, uma troca: Jesus
pega para si a impureza do leproso, carregando consigo a culpa moral e
religiosa por haver tocado nele, e o leproso recebe de Jesus a cura, a saúde e
a sua dignidade... enfim, a salvação que lhe é oferecida.
Não é
interessante perceber as semelhanças entre o que o Evangelho nos propõe e
aquilo que estamos vivendo? Não temos mais a lepra a nos amedrontar, pois hoje
é uma doença perfeitamente curável, a hanseníase. Porém, com a chegada do novo
coronavírus e o advento da COVID-19, passamos a nos ver uns aos outros como
possíveis “leprosos”, pois podemos contagiar facilmente os demais com esse
vírus terrível. O afastamento social nos colocou dentro de casa, como se nossos
lares fossem verdadeiros leprosários. Os rituais de purificação com álcool em
gel, com as máscaras e todos os protocolos em nada ficam a dever aos rituais
judaicos do Antigo Testamento. Fica a pergunta: se fosse hoje, como agiria Jesus
diante dessa situação?
Para evitar
o contágio pelo coronavírus, todos os cuidados são necessários. Vivemos um
tempo em que o afastamento social exigiu o fechamento de nossas igrejas e
templos, num verdadeiro “lockdown eclesial”. Passamos a assistir as Missas e
demais cultos religiosos na segurança de nossas casas e no conforto de nossas
redes sociais. Durante a quarentena isso se tornou uma necessidade, é preciso
reconhecer e de certa forma agradecer a Deus por essa possibilidade. Porém,
isso esconde um perigo terrível...
O perigo
que essa situação esconde consiste em descobrir a possibilidade de um “cristianismo
virtual”, seguro e totalmente sem riscos, um cristianismo totalmente asséptico,
limpo de toda a impureza, totalmente esterilizado... e totalmente estéril! Este
é um cristianismo onde é rasgada esta passagem da Bíblia, pois não se admite um
Cristo que toque no leproso e que vá ao encontro das mais terríveis misérias
humanas. Passamos a ser “católicos de Facebook”, achando que para ser um bom
fiel basta “seguir” perfis religiosos, compartilhando mensagenzinhas bonitinhas
e escrevendo amém depois de cada uma delas. Isso pode ser até bonito e
terapêutico nessas circunstâncias, mas pode trazer o risco de nos jogar numa
vivência cristã totalmente superficial (“quem concorda, escreve amém e
compatilha”, kkkkk).
Nos dois
mil anos de cristianismo tivemos muitos exemplos bonitos de cristãos que não
foram nada assépticos e esterilizados: São Francisco de Assis, que beija o
leproso, São Luís Gonzaga, que morre de peste por atender os enfermos numa pandemia
em Roma, São Damião de Molokai, que entrega a sua vida atendendo os leprosos
numa ilha no Havaí... Muitas vezes, a santidade e assepsia não andam juntos,
como podemos perceber...
Precisamos
ter todos os cuidados, reconheço. Não podemos, porém, deixar que o medo paralise
nossa ação pastoral e evangelizadora. Ao reabrir nossas igrejas, queremos dar o
testemunho de que nossa fé é maior que o medo e que o cuidado pela vida (manifestado
nos protocolos que estamos seguindo de sanitização, o que torna nossas igrejas
totalmente seguras) também deve ser cuidado pela fé e pela vida espiritual, o
que garante saúde física e mental para o nosso povo.
Muito pior do
que o coronavírus é o vírus de um cristianismo estéril, acomodado, formado por
cristãos isolados, fechados em si mesmos e que não sentem falta da comunidade,
preferindo uma relação fechada com Deus e bem longe do outros, porque os outros
são perigosos... Não permitamos que esta pandemia atinja também a nossa vida
cristã e eclesial. Por enquanto, são necessários certos cuidados, mas não
permitamos que essa situação totalmente atípica se torne comum em nossa Igreja.
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