Amanhã, dia
cinco de janeiro, eu completo vinte e sete anos de minha Ordenação Sacerdotal.
É, portanto, tempo de dar graças ao Senhor da Messe, pois Ele foi mais teimoso
em dar a sua Graça do que eu em corresponder a ela. Ao chegar neste tempo de
maturidade ministerial, é muito importante refletir a respeito do modo de viver
o ministério ordenado, especialmente nos desafios deste Terceiro Milênio.
Começo com uma afirmativa: é, de fato, muito bom ser padre. Todos os dias eu constato
a alegria que tenho em poder ser padre. Viver o ministério ordenado é algo
intrínseco do meu ser e não conseguiria me ver fazendo outra coisa na minha
vida que me deixasse tão realizado. E eu vejo isso não apenas na minha vida, mas
também na de tantos colegas padres que dedicaram e dedicam suas vidas, com
todas as suas forças e energias para o serviço do Reino de Deus.
Entretanto,
a vida sacerdotal também é cheia de percalços e tentações, que podem nos tirar
a alegria e o vigor ministerial. E é sobre as tentações na vida de nós, padres,
que quero refletir nesse pequeno artigo. Escrever e falar sobre isso é difícil,
mas necessário, porque nós muitas vezes acabamos agindo no modo automático e
não paramos para refletir sobre o nosso modo de viver e não buscamos um caminho
de conversão e de retorno ao Projeto de Deus para a nossa vida. Vamos, pois, a
elas:
Em primeiro
lugar, a tentação de querer pegar o
lugar de Deus. Em At 12,20-23 aparece um acontecimento, que demonstra,
talvez, a maior tentação dos nossos tempos, e que atingem também a nós,
presbíteros. O Rei Herodes Agripa, após uma linda cerimônia, foi aclamado pelo
povo, como se fosse um deus. A consequência disso? Morre, devorado por vermes,
por não haver dado glória a Deus. Aqui, eu quero fazer uma consideração: essa
tentação, mais do que dos padres, é muito forte nos nossos leigos e leigas, que,
por querer demonstrar carinho e afeto pelos seus padres, acabam colocando-os
num patamar de “semideuses”, de tal modo que caímos na tentação de Herodes
Agripa. O Papa Francisco tem falado muito na tentação da
“autorreferencialidade” na Igreja. Vivemos tempos de supervalorização do ego,
e, como homens que somos, podemos nos tornar vítimas dessas ciladas. Como lidar
com essa tentação da autorreferencialidade na nossa vida e ministério pastoral?
Voltando a nossa atenção a Cristo, que é o centro do nosso sacerdócio. A
contemplação de Jesus no Presépio, no Calvário e na Eucaristia torna-se o
“antídoto” contra esse veneno, que acaba destruindo a fecundidade da nossa vida
e ministério. Quando a minha atenção se volta a Cristo, então eu deixo de
pregar a mim mesmo, eu deixo de anunciar as minhas ideias, eu saio de cena para
dar lugar a Ele.
A segunda
tentação que quero abordar é a do
individualismo pastoral. O presbítero (padre) faz parte de um Presbitério.
O seu sacerdócio está intrinsecamente ligado ao do seu bispo e ao dos seus
colegas. Essa realidade se dá não apenas no nível teológico, mas até mesmo
existencial, emocional. Se um padre se isola do seu bispo e colegas de
Presbitério, a sua vida sacerdotal e até mesmo pastoral fica seriamente
ameaçada. O cultivo da amizade dentro do Presbitério faz com que o padre não se
feche dentro do “feudinho” da sua Paróquia, onde ele reina absoluto e mais
ninguém consegue entrar. Esta segunda tentação está muito ligada à anterior,
porque o padre deixa de trabalhar em unidade com a sua Igreja Diocesana, com os
Planos e Projetos Pastorais que ela possui, tornando-se ele mesmo o “plano” e
“projeto” que aplica e impõe ao povo que lhe é confiado. Vivemos hoje num mundo
totalmente conectado e não se concebe mais um padre que se fecha aos seus
irmãos e, deste modo, viva num mundo paralelo àquele da sua Diocese. Como
superar essa tentação na nossa vida e ministério? Buscando viver de modo
intenso a unidade com o bispo e colegas de Presbitério. E essa Unidade deve ser
buscada não apenas com aqueles que lhe são simpáticos ou amigáveis, mas com
todos. As visitas, os momentos de contato informal, o uso até mesmo das redes
sociais para manifestar apreço e simpatia, são mecanismos modernos de
estabelecimento de contato e de comunhão. Tudo isso ajuda, mas como
consequência do Amor que nos vem da Eucaristia. Todas as vezes que celebramos a
Eucaristia, estamos celebrando o Sacramento da Unidade, que provoca a cura para
todas as divisões, ressentimentos e indiferença que possamos ter com relação
aos nossos bispos e colegas padres.
A terceira
tentação é a de uma vida sem profetismo.
O Papa Francisco, na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium e à luz do
Documento de Aparecida, insiste na necessidade de sermos uma Igreja em saída.
Para que isso aconteça, é importante que tomemos consciência da urgência na
superação de uma pastoral de manutenção para sermos uma Igreja decididamente
missionária. A maior força missionária da Igreja se manifesta pelo testemunho
que nós, padres, devemos dar, por meio de uma vida profeticamente vivida. Num
tempo de facilidades e comodismo que a tecnologia nos oferece, precisamos
redescobrir a força profética da ascese, da renúncia e do sacrifício por Deus,
pelo Reino e pelo povo que nos é confiado. Sermos capazes de acordar cedo para
estarmos em oração; sermos capazes de abrir mão de momentos de descanso, para
estarmos com os enfermos e pobres que nos procuram; sermos capazes de abrir mão
dos primeiros lugares, para sermos aqueles que servem os últimos... É preciso a
superação da mentalidade de “padre-funcionário-do-sagrado”, que se contenta com
o exercício medíocre do seu ministério, recusando-se a ser padre fora do
horário do expediente. Uma vida sem profetismo é totalmente sem graça. As
pessoas fogem de um padre que perdeu o vigor apostólico. Quando (re)descobrimos
o encanto por dar a vida pelo Reino de Deus, (re)descobrimos, também, a alegria
de ser padre, em qualquer situação, com qualquer desafio, pois todo o nosso ser
se compromete com aquilo que estamos celebrando e vivendo. E tudo isso faz com
que a nossa vida fale mais alto do que as nossas palavras e faz com que o nosso
testemunho de uma vida alegre e despojada toque naturalmente o coração das
pessoas. Uma vida sem profetismo pode tornar o ministério insosso e a pregação
vazia, porque se torna apenas o anuncio de teorias e de ideias que não são
iluminadas por uma mística que lhes dá vida e sentido mais profundo.
A quarta tentação
é a de uma vida sem espiritualidade.
O nosso mundo nos joga num ativismo desenfreado, onde a busca pelo sucesso e
pela eficácia pode fazer de nós, padres, grandes empreendedores, que buscam uma
produtividade absoluta. Podemos nos tornar “peritos” em celebrações bonitas e
em pregações emocionantes. Podemos nos tornar especialistas em planos e
projetos pastorais que sejam eficazes. Mas, toda essa eficácia de nada adianta
se o centro do ministério for o meu EU e não Cristo (voltamos, com isso, à
primeira tentação, da autorreferencialidade!). Como padre, presidente de uma
Celebração Eucarística, não tenho o direito de celebrar a mim mesmo. Não tenho
o direito de fazer da Missa um Show, no qual eu seja o artista principal. O
centro da minha atenção é Cristo e o Mistério da nossa Salvação que ali se faz
presente. Como padre, eu sou apenas o servidor desse Mistério e instrumento da
Graça de Deus na vida da Igreja ali presente nas pessoas que participam. Por isso, a Eucaristia é a Fonte e o Cume de
toda a vida do padre, assim como de toda a vida da Igreja. O ponto culminante
da vida de um padre é a Missa celebrada cotidianamente. Todas as nossas
atividades pastorais se dirigem para a Eucaristia e encontram nela o seu ponto
de partida. Um padre que ama a Eucaristia e que celebra com alegria a Missa,
consegue ser vencedor contra todas as tentações que surgirem no exercício do
seu ministério.
Assim como
a Eucaristia é a fonte da espiritualidade sacerdotal, não poderia deixar de
citar a Sagrada Escritura, de modo especial celebrada na Liturgia das Horas.
Certa vez, um bispo disse que um padre que não celebra a Liturgia das Horas
deveria devolver toda a sua côngrua para a Paróquia, pois não estaria cumprindo
uma das suas principais atribuições, que é a de rezar pelo seu povo. A Liturgia
das Horas e a Lectio Divina são alimentos indispensáveis para a nossa espiritualidade
presbiteral. Destaco, também, a presença fundamental de Maria Santíssima, pois
ela, como Mãe de Deus, torna-se, também, Mãe dos Sacerdotes. Como filhos,
devemos ter o “rosto” da Mãe, ou seja, devemos ser semelhantes a Maria, na
escuta da vontade de Deus e na prática dessa vontade na nossa vida e
ministério.
É
importante tratar, também, das tentações na área da afetividade e sexualidade na vida dos padres. Elas existem
e são fortes, pois nós, padres, somos humanos e, graças a Deus, não somos
assexuados. Porém, quando conseguimos, com a Graça de Deus, superar todas as
tentações acima elencadas, vai acontecendo um processo de amadurecimento em
todas as áreas da nossa vida, inclusive na área humana e afetiva. Um padre que
consegue viver em unidade com Aquele que o chamou e enviou em missão, e
consegue cultivar relações maduras com os colegas e com as pessoas com quem
convive, saberá ter serenidade diante das tentações de um mundo cada vez mais
erotizado. As amizades estabelecidas com os homens e mulheres com quem convive
no seu trabalho pastoral irá fazer com que se sinta amado, acolhido e realizado
na sua vocação, não se tornando uma “pedra de gelo”, incapacitado de viver a
sua humanidade.
Termino reafirmando: é muito bom ser padre! Todas
estas tentações são desafios a serem superados ao longo da nossa vida e
ministério. Mas, para que isso aconteça, eu me aproprio de um pedido que o Papa
Francisco sempre repete: “Rezem por mim!” Rezem por nós, padres, para que
sejamos capazes de dar conta do tamanho da missão que nos é confiada. Rezem por
nós, para que sejamos generosos na entrega de nossa vida a Deus, ao Reino e ao
povo que nos é confiado. Que possamos ter coração de pastor, como o de Jesus, o
Bom Pastor. Que encontremos alegria cotidiana, nessa doação de vida , e que
essa alegria possa dar alegria e esperança ao povo de Deus.

Excelente reflexão! Oremos por todos os nossos padres!!!!
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