Casório

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quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

As tentações na vida dos padres


Amanhã, dia cinco de janeiro, eu completo vinte e sete anos de minha Ordenação Sacerdotal. É, portanto, tempo de dar graças ao Senhor da Messe, pois Ele foi mais teimoso em dar a sua Graça do que eu em corresponder a ela. Ao chegar neste tempo de maturidade ministerial, é muito importante refletir a respeito do modo de viver o ministério ordenado, especialmente nos desafios deste Terceiro Milênio. Começo com uma afirmativa: é, de fato, muito bom ser padre. Todos os dias eu constato a alegria que tenho em poder ser padre. Viver o ministério ordenado é algo intrínseco do meu ser e não conseguiria me ver fazendo outra coisa na minha vida que me deixasse tão realizado. E eu vejo isso não apenas na minha vida, mas também na de tantos colegas padres que dedicaram e dedicam suas vidas, com todas as suas forças e energias para o serviço do Reino de Deus.
Entretanto, a vida sacerdotal também é cheia de percalços e tentações, que podem nos tirar a alegria e o vigor ministerial. E é sobre as tentações na vida de nós, padres, que quero refletir nesse pequeno artigo. Escrever e falar sobre isso é difícil, mas necessário, porque nós muitas vezes acabamos agindo no modo automático e não paramos para refletir sobre o nosso modo de viver e não buscamos um caminho de conversão e de retorno ao Projeto de Deus para a nossa vida. Vamos, pois, a elas:
Em primeiro lugar, a tentação de querer pegar o lugar de Deus. Em At 12,20-23 aparece um acontecimento, que demonstra, talvez, a maior tentação dos nossos tempos, e que atingem também a nós, presbíteros. O Rei Herodes Agripa, após uma linda cerimônia, foi aclamado pelo povo, como se fosse um deus. A consequência disso? Morre, devorado por vermes, por não haver dado glória a Deus. Aqui, eu quero fazer uma consideração: essa tentação, mais do que dos padres, é muito forte nos nossos leigos e leigas, que, por querer demonstrar carinho e afeto pelos seus padres, acabam colocando-os num patamar de “semideuses”, de tal modo que caímos na tentação de Herodes Agripa. O Papa Francisco tem falado muito na tentação da “autorreferencialidade” na Igreja. Vivemos tempos de supervalorização do ego, e, como homens que somos, podemos nos tornar vítimas dessas ciladas. Como lidar com essa tentação da autorreferencialidade na nossa vida e ministério pastoral? Voltando a nossa atenção a Cristo, que é o centro do nosso sacerdócio. A contemplação de Jesus no Presépio, no Calvário e na Eucaristia torna-se o “antídoto” contra esse veneno, que acaba destruindo a fecundidade da nossa vida e ministério. Quando a minha atenção se volta a Cristo, então eu deixo de pregar a mim mesmo, eu deixo de anunciar as minhas ideias, eu saio de cena para dar lugar a Ele.
A segunda tentação que quero abordar é a do individualismo pastoral. O presbítero (padre) faz parte de um Presbitério. O seu sacerdócio está intrinsecamente ligado ao do seu bispo e ao dos seus colegas. Essa realidade se dá não apenas no nível teológico, mas até mesmo existencial, emocional. Se um padre se isola do seu bispo e colegas de Presbitério, a sua vida sacerdotal e até mesmo pastoral fica seriamente ameaçada. O cultivo da amizade dentro do Presbitério faz com que o padre não se feche dentro do “feudinho” da sua Paróquia, onde ele reina absoluto e mais ninguém consegue entrar. Esta segunda tentação está muito ligada à anterior, porque o padre deixa de trabalhar em unidade com a sua Igreja Diocesana, com os Planos e Projetos Pastorais que ela possui, tornando-se ele mesmo o “plano” e “projeto” que aplica e impõe ao povo que lhe é confiado. Vivemos hoje num mundo totalmente conectado e não se concebe mais um padre que se fecha aos seus irmãos e, deste modo, viva num mundo paralelo àquele da sua Diocese. Como superar essa tentação na nossa vida e ministério? Buscando viver de modo intenso a unidade com o bispo e colegas de Presbitério. E essa Unidade deve ser buscada não apenas com aqueles que lhe são simpáticos ou amigáveis, mas com todos. As visitas, os momentos de contato informal, o uso até mesmo das redes sociais para manifestar apreço e simpatia, são mecanismos modernos de estabelecimento de contato e de comunhão. Tudo isso ajuda, mas como consequência do Amor que nos vem da Eucaristia. Todas as vezes que celebramos a Eucaristia, estamos celebrando o Sacramento da Unidade, que provoca a cura para todas as divisões, ressentimentos e indiferença que possamos ter com relação aos nossos bispos e colegas padres.
A terceira tentação é a de uma vida sem profetismo. O Papa Francisco, na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium e à luz do Documento de Aparecida, insiste na necessidade de sermos uma Igreja em saída. Para que isso aconteça, é importante que tomemos consciência da urgência na superação de uma pastoral de manutenção para sermos uma Igreja decididamente missionária. A maior força missionária da Igreja se manifesta pelo testemunho que nós, padres, devemos dar, por meio de uma vida profeticamente vivida. Num tempo de facilidades e comodismo que a tecnologia nos oferece, precisamos redescobrir a força profética da ascese, da renúncia e do sacrifício por Deus, pelo Reino e pelo povo que nos é confiado. Sermos capazes de acordar cedo para estarmos em oração; sermos capazes de abrir mão de momentos de descanso, para estarmos com os enfermos e pobres que nos procuram; sermos capazes de abrir mão dos primeiros lugares, para sermos aqueles que servem os últimos... É preciso a superação da mentalidade de “padre-funcionário-do-sagrado”, que se contenta com o exercício medíocre do seu ministério, recusando-se a ser padre fora do horário do expediente. Uma vida sem profetismo é totalmente sem graça. As pessoas fogem de um padre que perdeu o vigor apostólico. Quando (re)descobrimos o encanto por dar a vida pelo Reino de Deus, (re)descobrimos, também, a alegria de ser padre, em qualquer situação, com qualquer desafio, pois todo o nosso ser se compromete com aquilo que estamos celebrando e vivendo. E tudo isso faz com que a nossa vida fale mais alto do que as nossas palavras e faz com que o nosso testemunho de uma vida alegre e despojada toque naturalmente o coração das pessoas. Uma vida sem profetismo pode tornar o ministério insosso e a pregação vazia, porque se torna apenas o anuncio de teorias e de ideias que não são iluminadas por uma mística que lhes dá vida e sentido mais profundo.
A quarta tentação é a de uma vida sem espiritualidade. O nosso mundo nos joga num ativismo desenfreado, onde a busca pelo sucesso e pela eficácia pode fazer de nós, padres, grandes empreendedores, que buscam uma produtividade absoluta. Podemos nos tornar “peritos” em celebrações bonitas e em pregações emocionantes. Podemos nos tornar especialistas em planos e projetos pastorais que sejam eficazes. Mas, toda essa eficácia de nada adianta se o centro do ministério for o meu EU e não Cristo (voltamos, com isso, à primeira tentação, da autorreferencialidade!). Como padre, presidente de uma Celebração Eucarística, não tenho o direito de celebrar a mim mesmo. Não tenho o direito de fazer da Missa um Show, no qual eu seja o artista principal. O centro da minha atenção é Cristo e o Mistério da nossa Salvação que ali se faz presente. Como padre, eu sou apenas o servidor desse Mistério e instrumento da Graça de Deus na vida da Igreja ali presente nas pessoas que participam.  Por isso, a Eucaristia é a Fonte e o Cume de toda a vida do padre, assim como de toda a vida da Igreja. O ponto culminante da vida de um padre é a Missa celebrada cotidianamente. Todas as nossas atividades pastorais se dirigem para a Eucaristia e encontram nela o seu ponto de partida. Um padre que ama a Eucaristia e que celebra com alegria a Missa, consegue ser vencedor contra todas as tentações que surgirem no exercício do seu ministério.
Assim como a Eucaristia é a fonte da espiritualidade sacerdotal, não poderia deixar de citar a Sagrada Escritura, de modo especial celebrada na Liturgia das Horas. Certa vez, um bispo disse que um padre que não celebra a Liturgia das Horas deveria devolver toda a sua côngrua para a Paróquia, pois não estaria cumprindo uma das suas principais atribuições, que é a de rezar pelo seu povo. A Liturgia das Horas e a Lectio Divina são alimentos indispensáveis para a nossa espiritualidade presbiteral. Destaco, também, a presença fundamental de Maria Santíssima, pois ela, como Mãe de Deus, torna-se, também, Mãe dos Sacerdotes. Como filhos, devemos ter o “rosto” da Mãe, ou seja, devemos ser semelhantes a Maria, na escuta da vontade de Deus e na prática dessa vontade na nossa vida e ministério.
É importante tratar, também, das tentações na área da afetividade e sexualidade na vida dos padres. Elas existem e são fortes, pois nós, padres, somos humanos e, graças a Deus, não somos assexuados. Porém, quando conseguimos, com a Graça de Deus, superar todas as tentações acima elencadas, vai acontecendo um processo de amadurecimento em todas as áreas da nossa vida, inclusive na área humana e afetiva. Um padre que consegue viver em unidade com Aquele que o chamou e enviou em missão, e consegue cultivar relações maduras com os colegas e com as pessoas com quem convive, saberá ter serenidade diante das tentações de um mundo cada vez mais erotizado. As amizades estabelecidas com os homens e mulheres com quem convive no seu trabalho pastoral irá fazer com que se sinta amado, acolhido e realizado na sua vocação, não se tornando uma “pedra de gelo”, incapacitado de viver a sua humanidade.
Termino reafirmando: é muito bom ser padre! Todas estas tentações são desafios a serem superados ao longo da nossa vida e ministério. Mas, para que isso aconteça, eu me aproprio de um pedido que o Papa Francisco sempre repete: “Rezem por mim!” Rezem por nós, padres, para que sejamos capazes de dar conta do tamanho da missão que nos é confiada. Rezem por nós, para que sejamos generosos na entrega de nossa vida a Deus, ao Reino e ao povo que nos é confiado. Que possamos ter coração de pastor, como o de Jesus, o Bom Pastor. Que encontremos alegria cotidiana, nessa doação de vida , e que essa alegria possa dar alegria e esperança ao povo de Deus.

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