Casório

Casório

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Meditação 5

MEDITAÇÃO 5
“todas as vezes que fizeste isso a um desses meus irmãos mais pequeninos,  foi a mim mesmo que o fizestes”  (Mt 25,40)

1.      Contemplar Jesus Abandonado, permanecer à sombra da Cruz, vai provocar na nossa vida de presbíteros um novo modo de ser, mais aberto e solidário para com os outros, especialmente os mais sofredores. Uma pessoa sem a Mística da Cruz fecha-se de tal modo em si mesma que já não consegue ter dentro de si uma atitude de compaixão. A indiferença diante da dor do outro é, talvez, o maior pecado dos nossos tempos e, muitas vezes, o grande pecado da Igreja.
2.      Nestes tempos de globalização, o Papa Francisco tem chamado a atenção da Igreja e da humanidade para a trágica “globalização da indiferença.”[1] Esta denúncia do Papa é bastante séria, uma vez que assistimos passivamente a cada dia um festival de horrores nos noticiários e vamos dormir tranquilamente, como se nada tivéssemos que ver com isso. A indiferença cresce em nós na mesma medida em que nos tornamos incapacitados de ver o rosto de Jesus Abandonado naqueles que estão jogados à beira do caminho.
3.      Basta um olhar para a parábola do “julgamento final”, em Mateus 25, para nos possibilitar uma revisão de vida sobre o nosso ministério presbiteral. O critério que Jesus utiliza para colocar-nos`, ou à direita, ou à esquerda, é exatamente esse: fazer – ou não fazer – algo pelo menor dos nossos irmãos. São as chamadas “Obras de Misericórdia”, uma vez que elas saem do nosso coração de pastor e devem ir para as nossas mãos de pastor. Jesus não nos pede sentimentos, mas atitudes, que sejam consequência do nosso amor a Deus e ao próximo.
4.      Pode até parecer fácil, num primeiro momento, o “fazer coisas” pelos que sofrem. Não é. O sofredor nunca é alguém que atrai. Por natureza, somos arredios ao sofrimento e aos sofredores. Eles nos causam repulsa, desconforto, incômodo. Por isso, só conseguiremos vencer essa repulsa na medida em que estivermos à sombra da Cruz e conseguirmos identificar os que sofrem com o próprio Jesus Abandonado. Isso vai criar em nós uma postura de total gratuidade, pois amaremos sem espectativa alguma de recompensa. A pobreza é uma palavra muito incômoda, pois vai de contramão à estrutura cultural do mundo. O espírito mundano não a conhece, não a quer, a esconde, não por pudor, mas por desprezo. E se tem que pecar e ofender a Deus para que não chegue a pobreza, o faz. O espírito do mundo não ama o caminho do Filho de Deus, que se fez pobre, se fez nada, se humilhou para ser um de nós”[2].
5.      Nossa primeira tarefa diante do Jesus Abandonado que aparece para nós nos sofredores deve ser a de intercessores. Se o presbítero é aquele que fala de Deus para as pessoas, deve ser também aquele que fala das pessoas a Deus. A sua oração deve ser semelhante à de Moisés, que, com os braços levantados ao céu, rezava pela batalha do povo de Israel[3]. Quantas são as batalhas do nosso povo! Quantas pessoas nos procuram, partilhando a sua dor e sofrimento, pedindo a nossa atenção, a nossa bênção, a nossa oração! Anos atrás eu cheguei à uma triste conclusão: todas as vezes que eu rezava, a maior parte do tempo da minha oração era dedicada a falar a Deus dos meus problemas, das minhas dores e dos meus projetos. Muitas vezes eu simplesmente esquecia de rezar pelo meu povo! Envergonhado, comecei a mudar, dando um espaço maior à oração pelas dores do povo que me é confiado, pela Igreja, pelo mundo... e só depois, no fim de tudo, se sobra tempo, por mim... é preciso que sejamos generosos também na nossa oração.
6.     O grande abandono que nosso povo sente consiste em não se sentir amado e não se sentir escutado nas suas dores e sofrimentos. O Papa Francisco, em Havana, na sua homilia com os seminaristas, padres e consagrados, insiste que o nosso ministério principal deve ser o da misericórdia: “Irmão sacerdote, irmão bispo, não tenham medo da misericórdia. Deixe que flua pelas tuas mãos e por teu abraço o perdão, porque este ou esta que estão ali são os pequeninos. E por isto, é Jesus.[4] É fundamental, nos dias de hoje, o ministério da acolhida e da escuta. Isso exige três coisas fundamentais: tempo, alteridade, atenção. Muitas pessoas, quando procuram o presbítero, querem encontrar essas três características, pois necessitam que alguém tenha a disponibilidade de, naqueles instantes, dar toda a atenção necessária. É preciso que sejamos como Jesus, que se entregava totalmente aos seus interlocutores, colocando-os no centro de sua atenção e afeto. Somente um coração de pastor consegue dar esses passos. Neste Jubileu da Misericórdia, é fundamental que esse seja o ponto principal do nosso ministério.
7.      A terceira tarefa que devemos assumir como presbíteros deve ser a de sermos “uma Igreja em saída”. “Ousemos um pouco mais no tomar a iniciativa! Como consequência, a Igreja sabe «envolver-se». Jesus lavou os pés aos seus discípulos. O Senhor envolve-se e envolve os seus, pondo-se de joelhos diante dos outros para os lavar; mas, logo a seguir, diz aos discípulos: «Sereis felizes se o puserdes em prática» (Jo 13,17). Com obras e gestos, a comunidade missionária entra na vida diária dos outros, encurta as distâncias, abaixa-se – se for necessário – até à humilhação e assume a vida humana, tocando a carne sofredora de Cristo no povo. Os evangelizadores contraem assim o ‘cheiro de ovelha’, e estas escutam a sua voz.[5]  Tomar a iniciativa: sermos criativos na arte de pastorear o rebanho que nos é confiado. “Quem um dia conheceu o mistério do Reino de Deus e se deixou encantar por ele, perdeu o direito de viver descansado”, nos ensina São Bernardo de Claraval. Assim sendo, contemplar o crucificado nas cruzes dos irmãos necessariamente vai nos levar a fazer algo por eles. Esse “fazer algo” não significa um ativismo inútil e estéril, mas sim uma ação que seja consequência da oração. A Bem Aventurada Madre Teresa de Calcutá só começava a trabalhar com os mais miseráveis da Índia após longas horas de oração diante do Santíssimo. É na nossa oração pelos outros que o Espírito Santo vai nos inspirar o que devemos fazer. Basicamente, o processo da ação pastoral se dá da seguinte forma: com os olhos e ouvidos percebemos a realidade do nosso povo. Com a mente e o coração, meditamos, oramos tudo o que foi visto e ouvido. Inspirados por Deus, começamos a agir, com nossas mãos a afetos, para servir o nosso povo. Quando um aspecto desse processo fica esquecido, todo o resto fica comprometido.
8.  Um presbítero sem oração torna-se superficial, vazio, apenas um “funcionário do sagrado”. Seu ministério cai na rotina, perde a alma, o coração. As pessoas que o procuram são apenas incômodos, valorizadas apenas quando contribuem financeiramente ou quando ficam massageando o seu ego. A dor dos outros não lhe dizem respeito. Para nada possuem tempo, a não ser para sua vida medíocre e seu ministério sem sentido. Só sabe conjugar os verbos na primeira pessoa do singular, sem jamais olhar para os outros e nem para o Outro. Que nossa vida não seja assim!



[1] Cf. Papa Francisco, Mensagem de Quaresma, em 27/01/2015
[2] Papa Francisco, Homilia aos Presbíteros, seminaristas e consagrados, em Havana, 20/9/2015
[3] Cf. Ex 17,8-16
[4]Papa Francisco, Homilia aos Presbíteros, seminaristas e consagrados, em Havana, 20/9/2015
[5] Papa Francisco, Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, 24

Nenhum comentário:

Postar um comentário

A SANTIDADE ESCONDIDA

  Hoje a Igreja celebrou o glorioso São Pio de Pietrelcina, o mais famoso santo do século XX, marcado com os estigmas da Paixão do Senhor e ...