“todas as
vezes que fizeste isso a um desses meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes” (Mt 25,40)
1.
Contemplar Jesus Abandonado, permanecer à sombra da Cruz, vai provocar
na nossa vida de presbíteros um novo modo de ser, mais aberto e solidário para
com os outros, especialmente os mais sofredores. Uma pessoa sem a Mística da
Cruz fecha-se de tal modo em si mesma que já não consegue ter dentro de si uma
atitude de compaixão. A indiferença diante da dor do outro é, talvez, o maior
pecado dos nossos tempos e, muitas vezes, o grande pecado da Igreja.
2.
Nestes tempos de globalização, o Papa Francisco tem chamado a atenção
da Igreja e da humanidade para a trágica “globalização da indiferença.”[1]
Esta denúncia do Papa é bastante séria, uma vez que assistimos passivamente a
cada dia um festival de horrores nos noticiários e vamos dormir tranquilamente,
como se nada tivéssemos que ver com isso. A indiferença cresce em nós na mesma
medida em que nos tornamos incapacitados de ver o rosto de Jesus Abandonado
naqueles que estão jogados à beira do caminho.
3.
Basta um olhar para a parábola do “julgamento final”, em Mateus 25,
para nos possibilitar uma revisão de vida sobre o nosso ministério presbiteral.
O critério que Jesus utiliza para colocar-nos`, ou à direita, ou à esquerda, é
exatamente esse: fazer – ou não fazer – algo pelo menor dos nossos irmãos. São
as chamadas “Obras de Misericórdia”, uma vez que elas saem do nosso coração de
pastor e devem ir para as nossas mãos de pastor. Jesus não nos pede
sentimentos, mas atitudes, que sejam consequência do nosso amor a Deus e ao
próximo.
4. Pode até parecer fácil, num
primeiro momento, o “fazer coisas” pelos que sofrem. Não é. O sofredor nunca é
alguém que atrai. Por natureza, somos arredios ao sofrimento e aos sofredores.
Eles nos causam repulsa, desconforto, incômodo. Por isso, só conseguiremos
vencer essa repulsa na medida em que estivermos à sombra da Cruz e conseguirmos
identificar os que sofrem com o próprio Jesus Abandonado. Isso vai criar em nós
uma postura de total gratuidade, pois amaremos sem espectativa alguma de
recompensa. “A pobreza é uma palavra muito incômoda, pois vai de contramão à estrutura
cultural do mundo. O espírito mundano não a conhece, não a quer, a esconde, não
por pudor, mas por desprezo. E se tem que pecar e ofender a Deus para que não
chegue a pobreza, o faz. O espírito do mundo não ama o caminho do Filho de
Deus, que se fez pobre, se fez nada, se humilhou para ser um de nós”[2].
5. Nossa
primeira tarefa diante do Jesus Abandonado que aparece para nós nos sofredores
deve ser a de intercessores. Se o presbítero é aquele que fala de Deus para as
pessoas, deve ser também aquele que fala das pessoas a Deus. A sua oração deve
ser semelhante à de Moisés, que, com os braços levantados ao céu, rezava pela
batalha do povo de Israel[3]. Quantas são as batalhas
do nosso povo! Quantas pessoas nos procuram, partilhando a sua dor e
sofrimento, pedindo a nossa atenção, a nossa bênção, a nossa oração! Anos atrás
eu cheguei à uma triste conclusão: todas as vezes que eu rezava, a maior parte
do tempo da minha oração era dedicada a falar a Deus dos meus problemas, das
minhas dores e dos meus projetos. Muitas vezes eu simplesmente esquecia de
rezar pelo meu povo! Envergonhado, comecei a mudar, dando um espaço maior à
oração pelas dores do povo que me é confiado, pela Igreja, pelo mundo... e só
depois, no fim de tudo, se sobra tempo, por mim... é preciso que sejamos
generosos também na nossa oração.
6.
O grande abandono que nosso povo sente consiste em
não se sentir amado e não se sentir escutado nas suas dores e sofrimentos. O
Papa Francisco, em Havana, na sua homilia com os seminaristas, padres e
consagrados, insiste que o nosso ministério principal deve ser o da misericórdia:
“Irmão
sacerdote, irmão bispo, não tenham medo da misericórdia. Deixe que flua pelas
tuas mãos e por teu abraço o perdão, porque este ou esta que estão ali são os
pequeninos. E por isto, é Jesus.” [4] É fundamental, nos dias
de hoje, o ministério da acolhida e da escuta. Isso exige três coisas
fundamentais: tempo, alteridade, atenção. Muitas pessoas, quando procuram o
presbítero, querem encontrar essas três características, pois necessitam que
alguém tenha a disponibilidade de, naqueles instantes, dar toda a atenção
necessária. É preciso que sejamos como Jesus, que se entregava totalmente aos
seus interlocutores, colocando-os no centro de sua atenção e afeto. Somente um
coração de pastor consegue dar esses passos. Neste Jubileu da Misericórdia, é
fundamental que esse seja o ponto principal do nosso ministério.
7.
A terceira tarefa que devemos assumir como
presbíteros deve ser a de sermos “uma Igreja em saída”. “Ousemos um pouco mais no tomar a iniciativa! Como consequência, a
Igreja sabe «envolver-se». Jesus lavou os pés aos seus discípulos. O Senhor
envolve-se e envolve os seus, pondo-se de joelhos diante dos outros para os
lavar; mas, logo a seguir, diz aos discípulos: «Sereis felizes se o puserdes em
prática» (Jo 13,17). Com obras
e gestos, a comunidade missionária entra na vida diária dos outros, encurta as
distâncias, abaixa-se – se for necessário – até à humilhação e assume a vida
humana, tocando a carne sofredora de Cristo no povo. Os evangelizadores
contraem assim o ‘cheiro de ovelha’, e estas escutam a sua voz.”[5]
Tomar a iniciativa: sermos criativos na
arte de pastorear o rebanho que nos é confiado. “Quem um dia conheceu o mistério do Reino de Deus e se deixou encantar
por ele, perdeu o direito de viver descansado”, nos ensina São Bernardo de
Claraval. Assim sendo, contemplar o crucificado nas cruzes dos irmãos necessariamente
vai nos levar a fazer algo por eles. Esse “fazer algo” não significa um
ativismo inútil e estéril, mas sim uma ação que seja consequência da oração. A
Bem Aventurada Madre Teresa de Calcutá só começava a trabalhar com os mais
miseráveis da Índia após longas horas de oração diante do Santíssimo. É na
nossa oração pelos outros que o Espírito Santo vai nos inspirar o que devemos
fazer. Basicamente, o processo da ação pastoral se dá da seguinte forma: com os
olhos e ouvidos percebemos a realidade do nosso povo. Com a mente e o coração,
meditamos, oramos tudo o que foi visto e ouvido. Inspirados por Deus, começamos
a agir, com nossas mãos a afetos, para servir o nosso povo. Quando um aspecto
desse processo fica esquecido, todo o resto fica comprometido.
8. Um presbítero sem oração
torna-se superficial, vazio, apenas um “funcionário
do sagrado”. Seu ministério cai na rotina, perde a alma, o coração. As pessoas
que o procuram são apenas incômodos, valorizadas apenas quando contribuem
financeiramente ou quando ficam massageando o seu ego. A dor dos outros não lhe
dizem respeito. Para nada possuem tempo, a não ser para sua vida medíocre e seu
ministério sem sentido. Só sabe conjugar os verbos na primeira pessoa do
singular, sem jamais olhar para os outros e nem para o Outro. Que nossa vida
não seja assim!
[1]
Cf. Papa Francisco, Mensagem de Quaresma, em 27/01/2015
[2]
Papa Francisco, Homilia aos Presbíteros, seminaristas e consagrados, em Havana,
20/9/2015
[3]
Cf. Ex 17,8-16
[4]Papa
Francisco, Homilia aos Presbíteros, seminaristas e consagrados, em Havana,
20/9/2015
[5]
Papa Francisco, Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, 24

Nenhum comentário:
Postar um comentário