Casório

Casório

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Meditação 4

MEDITAÇÃO 4
“Inclinou a cabeça e entregou o espírito” (Jo 19,30)
CALVÁRIO
MORRER PARA SI MESMO
Imolar-se                                                                                                                             Morrer para
            na solidão                                                                                                                      o seu corpo
            na oração                                                                                                                      o seu espírito
            na penitência                                                                                                                a sua vontade
            no trabalho                                                                                                                    a sua reputação
            no sofrimento                                                                                                                a sua família
            na morte                                                                                                                       o mundo
“O padre é um homem crucificado.
Quanto mais se morre,
mais se dá a vida.”[1]

1.      Já que o dia de ontem foi passado no escondimento do Presépio e de Nazaré, o de hoje será passado à sombra da Cruz, no Calvário, junto com Jesus Abandonado. Iremos, neste dia, tratar dois aspectos distintos e ao mesmo tempo complementares, que são essenciais para uma maior compreensão do nosso ministério presbiteral, e que devem estar muito presentes na nossa espiritualidade: a Cruz na vida do presbítero e o presbítero junto de Jesus Abandonado nos sofredores.
2.      Padre Chevrier define como condição para viver uma espiritualidade do seguimento de Jesus em duas frases muito importantes: “Conhecer Jesus é tudo!” E a segunda: “Ter o Espírito de Deus é tudo!” Traduzindo, a vida do presbítero precisa ter como fundamento o Mistério da Cruz, pois é impossível conhecer Jesus sem a Cruz. A Cruz de Jesus foi o ápice da nossa Salvação, na medida em que foi a plena entrega dele ao Pai. Ali, Ele se imola totalmente, sem reserva alguma. Até mesmo suas vestes são sorteadas. Contemplar Jesus na Cruz garante ao presbítero que o seu ministério não é feito de facilidades e de sucesso humano. É claro que a nossa vida ministerial é feita de muitas alegrias, mas a verdadeira alegria se dá na medida em que compreendemos que o sentido da nossa existência está na nossa doação para Deus e para o povo que nos é confiado.
3.      Especialmente para esta nossa meditação, convidamos Chiara Lubich para que caminhe conosco. A sua intuição a respeito de Jesus Abandonado vai nos ajudar a compreender como esse Mistério da Cruz pode nos ajudar na nossa vida e nas nossas escolhas. Chiara foi uma jovenzinha, nascida em 1920 na cidade de Trento, na Itália. Professora, o seu sonho era cursar uma faculdade. Porém, a II Guerra Mundial fez com que tudo se desmoronasse ao seu redor. Durante os bombardeios, nos lugares de refúgio, junto com algumas amigas, começou um grupo para meditar e tentar viver o Evangelho. Esse grupo deu origem ao Movimento dos Focolares. A intuição de Jesus Abandonado surgiu quando um frade perguntou para aquele grupo sobre qual seria o maior sofrimento que Jesus teve na sua Paixão. E o próprio frade respondeu: “Eu acho que foi no momento em que, pregado na Cruz, Ele gritou: ‘Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” Ali, naquele momento, Chiara teve sua grande inspiração: “Se a maior dor de Jesus foi o abandono por parte do seu Pai, nós vamos escolhê-lo como Ideal e seguí-lo assim.”[2]
4.      Estar com Jesus na Cruz provoca na vida do presbítero uma necessidade de seguimento, carregando também a sua cruz a cada dia.[3] Por isso é que precisamos sempre cultivar a intimidade com os Evangelhos, para que cresçamos também na intimidade com Jesus, com sua vida e seus ensinamentos. Isso, porém, será impossível sem a ajuda da Graça Divina e sem a ação do Espírito Santo a guiar o nosso caminho. Ter o Espírito de Deus é tudo, porque, sem Ele, nada conseguimos fazer. Foi o conhecimento de Jesus e a ação do Espírito de Deus que animou tantas gerações de santos e mártires que vieram antes de nós, além de tantos outros que procuram viver na fidelidade ao Senhor em nossos tempos.
5.       Nós vivemos num tempo em que se foge da Cruz. Vivemos numa sociedade e numa cultura do quanto mais fácil, melhor. A cruz e suas consequências – a renúncia, a ascese, a pobreza – se torna escândalo diante dessa cultura. Quantos presbíteros entram em crise (e em quantas crises nós já entramos?) quando não conseguem aquilo que querem, em termos de carreira, de status, de dinheiro...? Quantos já deixaram o ministério por não ter encontrado uma vida mais folgada? Aliás, quantos deveriam deixar o ministério e não o deixam justamente porque, como presbíteros, já possuem uma vida folgada? Uma vida sacerdotal sem cruz é uma vida sacerdotal vivida sem gosto, sem ânimo... “Tenho contra ti que arrefeceste no teu primeiro amor...”[4]
6.      Na Evangelii Gaudium, o Papa Francisco faz uma denúncia muito séria, a respeito de uma busca intimista pelo próprio espaço pessoal de satisfação, em detrimento do outro: “Hoje nota-se em muitos agentes pastorais, mesmo pessoas consagradas, uma preocupação exacerbada pelos espaços pessoais de autonomia e relaxamento, que leva a viver os próprios deveres como mero apêndice da vida, como se não fizessem parte da própria identidade. Ao mesmo tempo, a vida espiritual confunde-se com alguns momentos religiosos que proporcionam algum alívio, mas não alimentam o encontro com os outros, o compromisso no mundo, a paixão pela evangelização. Assim, é possível notar em muitos agentes evangelizadores – não obstante rezarem – uma acentuação do individualismo, uma crise de identidade e um declínio do fervor. São três males que se alimentam entre si”[5].
7.      Acredito que devemos olhar com carinho para a vida de nossos “velhos padres”, cuja vida de labuta e de entrega talvez tenha inspirado muitas de nossas vocações. Quando vemos os presbíteros de antigamente, que se aventuravam nas areias da “Estrada do Inferno”, morando no meio do nada, muitas vezes passando necessidade, deveríamos nos sentir estimulados a buscar uma maior fidelidade no nosso ministério, vivido à sombra da Cruz. Quantos deles passaram até mesmo fome e frio, atendendo as periferias de nossas cidades? E, ainda hoje, quantos presbíteros, no Norte do País, vivem em condições precárias para atender populações ribeirinhas, indígenas... Humanamente, é impossível dar um sentido à vida sem estar à sombra da Cruz, sem ter sempre presente o rosto de Jesus Abandonado. A vida sacerdotal, assim vivida, vai ser sempre uma vida de pobreza e de austeridade.
8.      Certa vez, um bispo amigo me disse algo que marcou profundamente a minha vida: “Gil, a gente não precisa procurar a cruz; ela é que sempre nos procura. Nós só temos que abraçá-la e seguir Jesus com ela às costas”. De fato, a vida humana é marcada por situações de dor e de sofrimento, bem como de alegrias também. Se nós encararmos as dores sem a dimensão da cruz, elas perdem o sentido redentor e passam a nos enlouquecer. Vivemos, desde o nosso nascimento, situações que nos incomodam e causam desconforto, seja no nosso corpo, seja no nosso interior. Quando caminhamos no seguimento de Jesus, o nosso olhar se purifica e, como consequência disso, a vida se torna mais suportável e mais bela.
9.  “O padre é um homem crucificado. Quanto mais se morre, mais se dá a vida”. Até que ponto o Mistério da Cruz faz parte de nossa vida espiritual? Até que ponto amar Jesus Abandonado nos faz compreender e amar também as nossa situações de abandono, renunciando à uma vida acomodada e burguesa? Diante da Cruz do Senhor, façamos o nosso Exame de Consciência, para  ver como está sendo vivido o nosso ministério...



[1] Guerre, R. A ESPIRITUALIDADE DO SACERDOTE DIOCESANO, pág. 67
[2] Lubich, C., IDEAL E LUZ, Cidade Nova, 2003, pág. 60.
[3] Cf. Mc 8,34-37
[4] Ap 2,4
[5] Papa Francisco, Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, 78

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