“Em seguida, desceu com eles a Nazaré...” (Lc 2,51)
1.
A vida de Charles de Foucauld (Irmão Carlos de Jesus) é extremamente
interessante. Nascido de uma família nobre, logo começa a sua carreira militar,
por influência do avô. Acaba por ter uma juventude totalmente dissoluta, vivida
em festas, amantes e bebedeiras. Expulso do Exército, por mau comportamento,
acaba retornando a ele e vai numa expedição para a África. Lá se encanta com o
ambiente e retorna, após sair novamente da vida militar, para uma expedição
geográfica. Volta à França onde, com o coração inquieto, busca a ajuda de um
padre, que o conduz à conversão. Sente o chamado à vida monástica e, após
várias experiências com os trapistas e em Nazaré, acaba retornando à África, já
como padre, para ali, ser presença cristã no meio do povo tuaregue,
testemunhando o Evangelho com a vida. Vive como eremita no Saara e ali acaba
sendo martirizado em dezembro de 1916.
2.
Nazaré exerce na alma de Irmão Carlos um grande fascínio. Contemplando
a vida da Sagrada Família, descobre o chamado a ser o último dos homens, amando
e servindo a todos. Torna-se o Irmão Universal. O que chama a atenção dele em
Nazaré? O fato de poder se colocar no último lugar, tornando-se o servo de
todos. Para Carlos, esta se torna uma busca contínua, algo essencial para a sua
vida. Para ele, Nazaré é sinal de aniquilamento, de rebaixamento de Jesus, mas
visto como solidariedade com os últimos do mundo. “Não suporto viver outra vida que não seja de Jesus de Nazaré”[1].
Ele faz da de Nazaré um programa de vida, buscando esse aniquilamento, ao modo
de Jesus. Começa essa busca na exigente vida monástica dos Trapistas. Acha que
esse estilo de vida é ainda muito fácil. Abandona tudo e vai para Nazaré, seguindo
os passos de Jesus. Coloca-se a serviço das Irmãs Clarissas, como jardineiro.
Ainda assim, quer descer mais ainda e lembra-se da África. Para lá volta, como
padre, eremita e missionário. Não tem a ambição de converter os tuaregues, mas
deseja apenas dar um simples e silencioso testemunho de amor para com aqueles
que estão no último lugar.
3.
O tempo de Jesus em Nazaré é um tempo de silenciosa contemplação e
ação. Ali aprende com Maria e José, vai crescendo em todos os aspectos de sua
vida, trabalha e sente-se parte do povo de Israel, frequentando a Sinagoga e
vivendo como um bom judeu. A sua vida pública, assumida a partir do Batismo no
Jordão, é consequência daquilo que foi iniciado no Presépio em Belém. Nada faz,
durante os anos de Nazaré, que seja diferente dos demais garotos e jovens de
seu tempo. Para Jesus, esse foi um tempo de preparação e de formação para o que
viria a seguir.
4.
O que aconteceu com Jesus é o mesmo que aconteceu conosco desde o nosso
nascimento. Na nossa infância e juventude, Deus foi “semeando” sinais da
realização de sua vontade para nós. Foram nesses pequenos sinais que surgiu e foi
construída a nossa vocação, qual um divino “mosaico”, onde, aos poucos, fomos
visualizando um caminho de felicidade e um sentido novo para a nossa existência.
A vivência da nossa fidelidade cotidiana nos convida a sempre de novo buscar em
Nazaré a inspiração para a nossa vida e ministério presbiteral. Assim foi no
nosso tempo de Seminário e assim deve ser nos nossos anos vida presbiteral, a
cada dia reafirmando o nosso SIM a Deus e ao chamado que Ele nos fez e faz
cotidianamente.
5.
A doação de vida que somos chamados a dar de forma total e generosa,
com um “coração indiviso”, acontece nas atitudes escondidas da “Nazaré” de
nossa Paróquia ou nos trabalhos pastorais que realizamos. São, muitas vezes,
atitudes e posturas que marcam muito a vida das pessoas que nos procuram e
talvez nunca saibamos o quão fomos e somos importantes na vida de tanta gente. “É motivo de grande conforto sublinhar que
hoje os presbíteros de todas as idades e na sua maioria desenvolvem com alegre
empenho muitas vezes fruto de silencioso heroísmo, o seu ministério,
trabalhando até o limite das próprias forças, sem ver, por vezes, os frutos do
seu trabalho.”[2]
6.
É preciso o cultivo de uma “espiritualidade de Nazaré”, para que o
nosso ministério seja fecundo e possamos aceitar que ser presbítero, muitas
vezes (na maioria das vezes!), vai exigir de nós esse “desaparecer”, para que
resplandeça a grande verdade: a obra é de Deus, e não nossa! Assim como João,
devemos dizer: “Importa que Ele cresça e
eu diminua.”[3]
7.
Às vezes, nós precisamos viver um tempo de Nazaré, pois sem ele podemos
nos deixar contaminar com uma mentalidade mundana de eficiência pastoral, onde
assumimos nós o papel de “salvador”. Dom Helder Câmara foi, talvez, o maior
bispo do seu tempo, em nosso país. A sua importância saía dos limites de sua
Arquidiocese de Olinda e Recife. Embora nunca tenha feito pronunciamento algum
durante todo o Concílio Vaticano II, foi um dos grande pilares da reforma
conciliar, especialmente organizando os bispos do Brasil e até mesmo de todo o
Terceiro Mundo. Dom Helder teria fracassado totalmente em qualquer iniciativa
se não fizesse as suas vigílias noturnas, realizadas durante quase toda a sua
vida. Ali, ele tinha o seu “tempo de Nazaré”, onde, como Maria, no silêncio,
meditava sobre todas as coisas no seu coração.[4]
8.
Viver Nazaré é, portanto, colocar-se com simplicidade nas mãos de Deus,
como instrumento dele. As grandes obras surgem a partir de pequenos
instrumentos manejados pelas mãos de um grande artista. E o grande Artista é
Deus. Quando o Irmão Carlos poderia, no Saara, imaginar que seria inspiração
para tantas gerações? Quando a pequena e desconhecida Irmã Teresa do Menino
Jesus iria imaginar que, após poucos anos de sua morte, seria uma celebridade
mundial? Apenas viveram Nazaré, seja no longínquo Saara, seja no escondido
clautro do Carmelo de Lisieux.
9. Agora é um tempo para irmos a Nazaré e apenas estarmos
com Jesus. De modo totalmente despretencioso, vamos colocar diante d’Ele a
nossa vida e ministério. De que forma podemos viver o nosso Nazaré, como um
programa de vida espiritual que anime o nosso ministério?

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