“...reclinou-o num presépio, porque não havia lugar para eles na
hospedaria.” (Lc 2,7)
PRESÉPIO
POBRE HUMILDE
- na casa -
de espírito
- no vestuário -
de coração
- na alimentação -
perante Deus, os homens
- nos bens e si mesmo
- no trabalho
- no ministério
“O padre é um homem despojado.
Quanto mais pobre se é, mais se glorifica e
se ama”[1]
1.
A vida do presbítero deve ser conforme a vida de Jesus. E esta
exigência não se dá apenas por uma opção pessoal, mas deve ser algo inerente à
sua vida, vocação e ministério. Quando escolhemos ser presbíteros, atendendo ao
chamado do Senhor, a consequência óbvia a esta escolha consiste sermos
seguidores de Jesus em seus aspectos fundamentais de vida. É lógico que o nosso
seguimento será sempre falho e imperfeito, porque nós somos falhos e
imperfeitos. Porém, a nossa vida deve estar sempre em constante caminho de
conversão. Contemplar Jesus é colocar-se nesse caminho de forma decidida e
renovada.
2.
Se fôssemos definir numa só palavra o “jeito de ser” de Jesus,
poderíamos escolher o termo “alteridade”. O próprio mistério da Trindade é de
alteridade absoluta entre as três Pessoas trinitárias. O mistério da Encarnação
também é de total alteridade de Jesus para com a humanidade marcada pelo
egoísmo e pelo pecado. Em várias passagens dos Evangelhos, aparece em Jesus
este sentimento e postura de alteridade. “Ao
desembarcar, Jesus viu uma grande multidão e compadeceu-se dela, porque era
como ovelhas que não têm pastor”[2].
Assim como na vida de Jesus, a do presbítero precisa ser de alteridade para com
Deus, para com a Igreja, para com o seu povo. Muitos entram em crise na sua
vida pessoal e ministerial quando perdem a capacidade de contemplar Jesus e a
sua vida e de assumir o seu jeito de ser, perdendo, assim, a sua capacidade de
alteridade no amor. Como estamos no mundo, muitas vezes nos deixamos
“contaminar” por um estilo de vida e de atitudes mundanas.
3.
Olhemos para o presépio. Ali Jesus está presente, totalmente pobre. Uma
pobreza humilhante. Não havia lugar para eles na hospedaria, porque seria um
grande incômodo receber um casal prestes a dar à luz. Quantas vezes olhamos
para o presépio e ficamos enternecidos com o que contemplamos? Mas não foi
fácil para José e Maria ter o menino numa estrebaria, lugar escuro, sujo, sem
dignidade alguma. “O padre Chevrier
contemplou Jesus no Presépio e descobriu a situação real de carência e de
marginalização em que nasceu o Filho de Deus. Esta situação de carência ele
encontrava sempre nas casas dos proletários da sua paróquia”[3].
4.
A pobreza de Jesus deve ser também a pobreza assumida pelos seus
discípulos missionários. A “conversão” do Padre Chevrier se deu numa noite de
Natal, contemplando o Presépio em sua capela. Foi o primeiro passo rumo a uma
vida despojada, para ser parecida com a de Jesus. Contempla Jesus que, no
Presépio, se faz pobre, realmente pobre, sem nada. Conclui que a pobreza de
Jesus é real e totalmente escolhida por Ele. Percebe que, com isso, Ele vive a
real vida do seu povo e faz seus o sofrimento da sua gente. Ainda, nos
primeiros dias, vive a realidade dos desterrados, dos migrantes, sentindo o
medo da perseguição. Ainda criança, vai morar, com Maria e José num lugarejo
pequeno, na província da Galileia. A vida do presbítero, vivida na fidelidade
ao Evangelho, deve ser como a de Jesus, pobre e despojada.
5.
Seguindo Jesus, o presbítero é chamado a viver na simplicidade à sombra
do Presépio. A pobreza e o despojamento do presbítero é consequência da sua
fidelidade a Jesus. E essa é uma consequência que se faz naturalmente, com
alegria, na medida em que o Reino de Deus é o nosso tesouro maior. “Escolher ser pobre não é outra coisa que decidir-se a fazer do
anúncio do Reino a única paixão da existência. Quando o absoluto de nossa vida
é Jesus e o anúncio de seu Reino, o dinheiro, as propriedades, os bens começam
a sobrar, ou, o que é a mesma coisa, deixam de ser absolutos em nossa vida”.[4]
É preciso que sejamos muito corajosos para descobrirmos o que é essencial em
nossa vida e ministério.
6.
Muitas vezes passamos toda a nossa vida em busca de coisas que não são
fundamentais para o seguimento de Jesus. Raramente são bens, uma vez que o que
ganhamos não nos permite uma vida de ostentação. Porém, o que vai dentro do
nosso coração? Que tesouros nós cultivamos e que se tornam, às vezes um peso
inútil? Mais do que coisas, o tesouro do nosso coração pode ser o status quo de sermos sacerdotes, termos
uma certa “fama”, além da deferência com que as pessoas nos tratam e massageiam
o nosso ego inflado. Pode ser o carreirismo, de ter poder e influência sobre as
outras pessoas e as estruturas eclesiais. Traduzindo: muitas vezes nós comemos
mocotó e arrotamos caviar...
7.
Jesus sempre cultivou uma grande liberdade interior diante das
riquezas, das coisas e das pessoas. Frequentava casas simples, como a da sogra
de Pedro e a de Marta e Maria, bem como casas abastadas, como a de Zaqueu. A
todos tratava da mesma forma, sendo amável quando era permitido, sendo duro
quando necessário. Quando quiseram fazê-lo rei, fugiu para o deserto[5].
8.
Nós, presbíteros, vivemos num mundo de total contrastes. Podemos,
facilmente, entrar na roda-viva do consumismo, dando grande importância a
coisas que são secundárias e esquecendo do que é essencial. É preciso que
façamos escolhas. Escolher o Reino de Deus e colocá-lo como grande meta da nossa
vida e ministério vai exigir que façamos as escolhas certas. É preciso uma
simplicidade de vida, para que ela seja um testemunho profético do Reino de
Deus. A posse de muitas coisas pode tornar-se escândalo para os mais pobres do
nosso povo. É preciso uma simplicidade de atitudes diante das pessoas. Um presbítero
pobre e simples jamais vai ser arrogante e pretencioso. É preciso uma pobreza
de coração, para que a pobreza real que vivemos não seja algo assumido com
tristeza e amargura, como se fosse um mal inevitável.
Porém, como conseguir essa liberdade interior, que se
torna fonte de uma vida pobre, despojada e feliz? O eterno retorno ao Presépio
e a Nazaré vai nos proporcionar a força e a vitalidade interior diante das
coisas, das pessoas e das funções. É preciso contemplar sempre de novo o
menino, pobre e frágil, totalmente necessitado de proteção. Ele é simples. Tal
qual qualquer criança, ele só precisa de proteção e carinho. Basta para ele uma
pequena família, pobre e simples. E é justamente nessa família, nesse lar que
Jesus vai crescer em estatura, sabedoria e graça diante de Deus e dos homens.
Assim, na vida do presbítero, que baste o essencial para a sua vida e
ministério. Que seja sua vida simples, despojada e alegre. Quando vemos a vida
e o testemunho de tantos colegas, muitos já falecidos, que deram sua vida para
Deus e o povo, mesmo no meio de tantas dificuldades, devemos nos inspirar
nesses modelos, para que a nossa vida e ministério possa ser exemplo para as
novas gerações que virão a seguir.

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