Casório

Casório

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Meditação 2

MEDITAÇÃO 2
“...reclinou-o num presépio, porque não havia lugar para eles na hospedaria.” (Lc 2,7)
PRESÉPIO

POBRE                                                                                                                                             HUMILDE
        - na casa                                                                                                           - de espírito
        - no vestuário                                                                                                   - de coração
        - na alimentação                                                                                                          - perante Deus, os homens
        - nos bens                                                                                                           e si mesmo
        - no trabalho
        - no ministério

“O padre é um homem despojado.
Quanto mais pobre se é, mais se glorifica e
se ama[1]
1.      A vida do presbítero deve ser conforme a vida de Jesus. E esta exigência não se dá apenas por uma opção pessoal, mas deve ser algo inerente à sua vida, vocação e ministério. Quando escolhemos ser presbíteros, atendendo ao chamado do Senhor, a consequência óbvia a esta escolha consiste sermos seguidores de Jesus em seus aspectos fundamentais de vida. É lógico que o nosso seguimento será sempre falho e imperfeito, porque nós somos falhos e imperfeitos. Porém, a nossa vida deve estar sempre em constante caminho de conversão. Contemplar Jesus é colocar-se nesse caminho de forma decidida e renovada.
2.      Se fôssemos definir numa só palavra o “jeito de ser” de Jesus, poderíamos escolher o termo “alteridade”. O próprio mistério da Trindade é de alteridade absoluta entre as três Pessoas trinitárias. O mistério da Encarnação também é de total alteridade de Jesus para com a humanidade marcada pelo egoísmo e pelo pecado. Em várias passagens dos Evangelhos, aparece em Jesus este sentimento e postura de alteridade. “Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão e compadeceu-se dela, porque era como ovelhas que não têm pastor[2]. Assim como na vida de Jesus, a do presbítero precisa ser de alteridade para com Deus, para com a Igreja, para com o seu povo. Muitos entram em crise na sua vida pessoal e ministerial quando perdem a capacidade de contemplar Jesus e a sua vida e de assumir o seu jeito de ser, perdendo, assim, a sua capacidade de alteridade no amor. Como estamos no mundo, muitas vezes nos deixamos “contaminar” por um estilo de vida e de atitudes mundanas.
3.      Olhemos para o presépio. Ali Jesus está presente, totalmente pobre. Uma pobreza humilhante. Não havia lugar para eles na hospedaria, porque seria um grande incômodo receber um casal prestes a dar à luz. Quantas vezes olhamos para o presépio e ficamos enternecidos com o que contemplamos? Mas não foi fácil para José e Maria ter o menino numa estrebaria, lugar escuro, sujo, sem dignidade alguma. “O padre Chevrier contemplou Jesus no Presépio e descobriu a situação real de carência e de marginalização em que nasceu o Filho de Deus. Esta situação de carência ele encontrava sempre nas casas dos proletários da sua paróquia[3].
4.      A pobreza de Jesus deve ser também a pobreza assumida pelos seus discípulos missionários. A “conversão” do Padre Chevrier se deu numa noite de Natal, contemplando o Presépio em sua capela. Foi o primeiro passo rumo a uma vida despojada, para ser parecida com a de Jesus. Contempla Jesus que, no Presépio, se faz pobre, realmente pobre, sem nada. Conclui que a pobreza de Jesus é real e totalmente escolhida por Ele. Percebe que, com isso, Ele vive a real vida do seu povo e faz seus o sofrimento da sua gente. Ainda, nos primeiros dias, vive a realidade dos desterrados, dos migrantes, sentindo o medo da perseguição. Ainda criança, vai morar, com Maria e José num lugarejo pequeno, na província da Galileia. A vida do presbítero, vivida na fidelidade ao Evangelho, deve ser como a de Jesus, pobre e despojada.
5.      Seguindo Jesus, o presbítero é chamado a viver na simplicidade à sombra do Presépio. A pobreza e o despojamento do presbítero é consequência da sua fidelidade a Jesus. E essa é uma consequência que se faz naturalmente, com alegria, na medida em que o Reino de Deus é o nosso tesouro maior. “Escolher ser pobre  não é outra coisa que decidir-se a fazer do anúncio do Reino a única paixão da existência. Quando o absoluto de nossa vida é Jesus e o anúncio de seu Reino, o dinheiro, as propriedades, os bens começam a sobrar, ou, o que é a mesma coisa, deixam de ser absolutos em nossa vida”.[4] É preciso que sejamos muito corajosos para descobrirmos o que é essencial em nossa vida e ministério.
6.      Muitas vezes passamos toda a nossa vida em busca de coisas que não são fundamentais para o seguimento de Jesus. Raramente são bens, uma vez que o que ganhamos não nos permite uma vida de ostentação. Porém, o que vai dentro do nosso coração? Que tesouros nós cultivamos e que se tornam, às vezes um peso inútil? Mais do que coisas, o tesouro do nosso coração pode ser o status quo de sermos sacerdotes, termos uma certa “fama”, além da deferência com que as pessoas nos tratam e massageiam o nosso ego inflado. Pode ser o carreirismo, de ter poder e influência sobre as outras pessoas e as estruturas eclesiais. Traduzindo: muitas vezes nós comemos mocotó e arrotamos caviar...
7.      Jesus sempre cultivou uma grande liberdade interior diante das riquezas, das coisas e das pessoas. Frequentava casas simples, como a da sogra de Pedro e a de Marta e Maria, bem como casas abastadas, como a de Zaqueu. A todos tratava da mesma forma, sendo amável quando era permitido, sendo duro quando necessário. Quando quiseram fazê-lo rei, fugiu para o deserto[5].
8.      Nós, presbíteros, vivemos num mundo de total contrastes. Podemos, facilmente, entrar na roda-viva do consumismo, dando grande importância a coisas que são secundárias e esquecendo do que é essencial. É preciso que façamos escolhas. Escolher o Reino de Deus e colocá-lo como grande meta da nossa vida e ministério vai exigir que façamos as escolhas certas. É preciso uma simplicidade de vida, para que ela seja um testemunho profético do Reino de Deus. A posse de muitas coisas pode tornar-se escândalo para os mais pobres do nosso povo. É preciso uma simplicidade de atitudes diante das pessoas. Um presbítero pobre e simples jamais vai ser arrogante e pretencioso. É preciso uma pobreza de coração, para que a pobreza real que vivemos não seja algo assumido com tristeza e amargura, como se fosse um mal inevitável.
Porém, como conseguir essa liberdade interior, que se torna fonte de uma vida pobre, despojada e feliz? O eterno retorno ao Presépio e a Nazaré vai nos proporcionar a força e a vitalidade interior diante das coisas, das pessoas e das funções. É preciso contemplar sempre de novo o menino, pobre e frágil, totalmente necessitado de proteção. Ele é simples. Tal qual qualquer criança, ele só precisa de proteção e carinho. Basta para ele uma pequena família, pobre e simples. E é justamente nessa família, nesse lar que Jesus vai crescer em estatura, sabedoria e graça diante de Deus e dos homens. Assim, na vida do presbítero, que baste o essencial para a sua vida e ministério. Que seja sua vida simples, despojada e alegre. Quando vemos a vida e o testemunho de tantos colegas, muitos já falecidos, que deram sua vida para Deus e o povo, mesmo no meio de tantas dificuldades, devemos nos inspirar nesses modelos, para que a nossa vida e ministério possa ser exemplo para as novas gerações que virão a seguir.



[1] Guerre, R., ESPIRITUALIDADE DO SACERDOTE DIOCESANO, Edições Paulinas, 1987, pág. 60
[2] Mc 6,34
[3] Idem, pág. 61
[4] Idem, pág. 65
[5] Cf. Jo 6,15

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