Retiro pregado ao Clero do Rio Grande, em março de 2016
“Levarei ao
deserto e lhe falarei ao coração” (Os 2,16)
1. Um Retiro é sempre uma oportunidade que Deus nos dá
para sairmos de nossa vida cotidiana e para irmos de novo ao deserto, para um
encontro com o Senhor. É a chance que o Senhor nos oferece para refazermos a
Aliança com Ele, de um modo bonito, que nos faça ouvir a sua voz dentro do
nosso coração. Temos que admitir que a nossa vida é muito corrida: atividades
mil estão sempre à nossa espera, pessoas que querem desabafar conosco, jogando
todo o seu peso às nossas costas, responsabilidades imensas que temos na ação
pastoral e evangelizadora, que, aos poucos, podem ir nos desgastando e, se nos
descuidarmos, podem ir esfriando o nosso amor. “Tenho contra ti que arrefeceste o teu primeiro amor”[1]. Que
este Retiro possa ser uma oportunidade de renovarmos o nosso sacerdócio como
dom de amor da nossa vida e resposta ao chamado de Deus.
2. Iremos, ao longo desses dias, trabalhar com três momentos da vida de Jesus, que são essenciais
para a compreensão de tudo aquilo que Ele é e aquilo que Ele fez e faz. Iremos
nos transportar para o Presépio, onde Jesus vive a imensa pobreza, enquanto
postura de total generosidade do seu amor para conosco. Depois iremos a Nazaré,
onde contemplaremos a vida escondida de Jesus com Maria, sua Mãe e São José.
Uma vida escondida, da qual não temos quase nenhuma informação, a não ser a de
que ele “crescia em estatura, em sabedoria e em graça, diante de Deus e dos
homens”[2]. Logo
após, iremos ao Calvário com Jesus, contemplando-o abandonado, Servo Sofredor,
que se entrega por amor. E nos veremos enquanto alguém que deve dar a vida por
Deus, pelo Reino e pelos outros. Também veremos que o presbítero deve ser
alguém que, como Maria, fica aos pés da cruz de Jesus Abandonado presente nos
abandonados e abandonadas deste mundo. Finalmente, o terceiro momento: Jesus na
Eucaristia, aquele que se dá totalmente, triturado por Amor, tornando-se
Alimento por nós. E nós, celebrantes da Eucaristia, somos eucarísticos na
doação de nossa vida?
3. Iremos caminhar nesses dias com Jesus e Maria.
Caminhar com Jesus significa fazer um caminho de discipulado. É parar com Ele
para ouví-lo falar ao nosso coração. O Profeta Oséias já anuncia os tempos em
que Deus vai conduzir o seu povo ao deserto, para falar-lhe ao coração. E
Isaías vai dizer que Ele é o Deus-conosco, que não nos abandona na nossa
caminhada, mas vem até nós e partilha da nossa condição e tem compaixão de
nossa pobreza. É importante convidar também Maria para caminhar conosco.
Estamos às vésperas do tri-centenário da presença de Maria em Aparecida e do
centenário das suas aparições em Fátima. Como Mãe, Maria diz a Jesus: “Eles não têm mais vinho” e igualmente
diz a nós: “Fazei tudo o que Ele vos
disser”[3]
4. Nesta nossa caminhada no Deserto, nós teremos também alguns
amigos que irão conosco. São pessoas que marcaram e marcam fortemente a vida da
Igreja, desde os seus tempos até os dias de hoje. São companheiros de viagem ao
longo desses meus 25 anos de ministério presbiteral, inspirando muito a caminhada
espiritual feita, com os meus altos e baixos. O nosso primeiro companheiro de
viagem é o Bem Aventurado Antoine Chevrier, um padre diocesano de Lyon, na
França, no tempo do Cura d’Ars (1826-1879). Ele foi fundador do Instituto do
Prado, uma organização para padres diocesanos que vivem nos meios populares.
Outro companheiro de nossa viagem será o nosso querido Bem Aventurado Charles
de Foucauld (1858-1916), bem mais conhecido que o Padre Chevrier. As intuições
de ambos são bastante semelhantes. Elas nos ajudam a perceber um tipo de padre
que a Igreja em nossos tempos deseja e que o nosso povo precisa. Temos, ainda,
mais um: Padre José Kentenich (1885-1968), fundador da Obra de Schoenstatt, que
muito me ajudou, ao longo da minha vida ministerial, a ter uma relação mais
profunda com Maria, a fazer aliança com ela e junto com ela, a viver em aliança
com Jesus , seu Filho. E não podemos esquecer Chiara Lubich (1920-2008). Chiara
foi, talvez, uma das mulheres mais importantes da Igreja no último século. Suas
intuições marcaram profundamente a vida das novas gerações e são atualíssimas
para os nossos dias.
5. Talvez fique a impressão de que eu esteja fazendo uma
certa “salada de frutas”, com tanta gente de diferentes caminhos espirituais.
Porém, gosto de utilizar a imagem de um mosaico, onde uma peça se encaixa
perfeitamente na outra, mostrando, assim, uma linda imagem. Dom Helder Câmara
tinha os seus companheiros de viagem que, em todas as madrugadas, nas vigílias
que realizava, acompanhavam seus momentos de oração e reflexão: Jesus, Maria, o
seu Anjo da Guarda, São Francisco de Assis, os papas João XXIII e Paulo VI,
entre tantos outros. É importante e agradável saber que não estamos sozinhos em
nossa caminhada espiritual e que, pela Comunhão dos Santos, Deus coloca conosco
pessoas que se tornam nossos amigos, confidentes e intercessores. Quais são os
amigos que queremos que nos acompanhem nesses dias?
6. É importante que, neste nosso ponto de partida,
animados pelo testemunho de tantas pessoas, tenhamos bastante presente o que
Deus quer e o que a Igreja precisa de nós, presbíteros deste terceiro milênio,
dentro da realidade latino-americana e, de modo especial, no presbitério do Rio
Grande. Quando o Documento de Aparecida fala de “conversão pastoral”, ele se
refere a toda a Igreja (também a nossa vida e ministério), que se deve colocar
“em saída”, como insiste tanto o Papa Francisco. Isso repercute decisivamente
no nosso modo de ser presbítero, uma vez que, ao olharmos para Jesus, nosso
Modelo, contemplamos o Filho de Deus que saiu do seio da Trindade e se fez um
de nós, para viver a nossa condição e se tornar o nosso Salvador. O Mistério da
Encarnação é o grande mote para nossa vida de presbíteros. É na contemplação
desse Mistério, que se dá no Presépio/Nazaré, no Calvário e na Eucaristia que
encontramos a mística para a nossa vida e ministério. Contemplando Jesus nesses
momentos-chave, nós poderemos fazer a nossa revisão de vida e refazer nossas
opções primordiais, que irão guiar a nossa vida presbiteral.
7. Quando
eu fiz o Cursilho, em maio de 1991, o que mais me chamou a atenção foi o
desafio de fazer o “filme da vida”, na primeira noite. Éramos convidados, antes
de dormir, na primeira noite do Curso, a fazer passar pela nossa memória toda a
nossa vida, com os seus momentos bons e ruins. Quais os acontecimentos da nossa
vida deveriam ser sempre lembrados? E os fatos negativos? Quais cortaríamos
desse filme? O que proponho, nesta noite, é fazer passar o “filme da vida da
nossa vocação e do nosso sacerdócio”, dando destaque às partes mais bonitas,
aos momentos mais emocionantes... Também é bom rever os momentos de dor e de
dificuldades que aconteceram, as nossas infidelidades, os nossos pecados... Que essa revisão de vida possa nos
ajudar no caminho de deserto que estamos fazendo nesses dias.
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