Casório

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segunda-feira, 5 de junho de 2017

Meditação 1

Retiro pregado ao Clero do Rio Grande, em março de 2016
MEDITAÇÃO 1
“Levarei ao deserto e lhe falarei ao coração” (Os 2,16)

1.      Um Retiro é sempre uma oportunidade que Deus nos dá para sairmos de nossa vida cotidiana e para irmos de novo ao deserto, para um encontro com o Senhor. É a chance que o Senhor nos oferece para refazermos a Aliança com Ele, de um modo bonito, que nos faça ouvir a sua voz dentro do nosso coração. Temos que admitir que a nossa vida é muito corrida: atividades mil estão sempre à nossa espera, pessoas que querem desabafar conosco, jogando todo o seu peso às nossas costas, responsabilidades imensas que temos na ação pastoral e evangelizadora, que, aos poucos, podem ir nos desgastando e, se nos descuidarmos, podem ir esfriando o nosso amor. “Tenho contra ti que arrefeceste o teu primeiro amor”[1]. Que este Retiro possa ser uma oportunidade de renovarmos o nosso sacerdócio como dom de amor da nossa vida e resposta ao chamado de Deus.
2.      Iremos, ao longo desses dias, trabalhar com três  momentos da vida de Jesus, que são essenciais para a compreensão de tudo aquilo que Ele é e aquilo que Ele fez e faz. Iremos nos transportar para o Presépio, onde Jesus vive a imensa pobreza, enquanto postura de total generosidade do seu amor para conosco. Depois iremos a Nazaré, onde contemplaremos a vida escondida de Jesus com Maria, sua Mãe e São José. Uma vida escondida, da qual não temos quase nenhuma informação, a não ser a de que ele “crescia em estatura, em sabedoria e em graça, diante de Deus e dos homens”[2]. Logo após, iremos ao Calvário com Jesus, contemplando-o abandonado, Servo Sofredor, que se entrega por amor. E nos veremos enquanto alguém que deve dar a vida por Deus, pelo Reino e pelos outros. Também veremos que o presbítero deve ser alguém que, como Maria, fica aos pés da cruz de Jesus Abandonado presente nos abandonados e abandonadas deste mundo. Finalmente, o terceiro momento: Jesus na Eucaristia, aquele que se dá totalmente, triturado por Amor, tornando-se Alimento por nós. E nós, celebrantes da Eucaristia, somos eucarísticos na doação de nossa vida?
3.      Iremos caminhar nesses dias com Jesus e Maria. Caminhar com Jesus significa fazer um caminho de discipulado. É parar com Ele para ouví-lo falar ao nosso coração. O Profeta Oséias já anuncia os tempos em que Deus vai conduzir o seu povo ao deserto, para falar-lhe ao coração. E Isaías vai dizer que Ele é o Deus-conosco, que não nos abandona na nossa caminhada, mas vem até nós e partilha da nossa condição e tem compaixão de nossa pobreza. É importante convidar também Maria para caminhar conosco. Estamos às vésperas do tri-centenário da presença de Maria em Aparecida e do centenário das suas aparições em Fátima. Como Mãe, Maria diz a Jesus: “Eles não têm mais vinho” e igualmente diz a nós: “Fazei tudo o que Ele vos disser”[3]
4.      Nesta nossa caminhada no Deserto, nós teremos também alguns amigos que irão conosco. São pessoas que marcaram e marcam fortemente a vida da Igreja, desde os seus tempos até os dias de hoje. São companheiros de viagem ao longo desses meus 25 anos de ministério presbiteral, inspirando muito a caminhada espiritual feita, com os meus altos e baixos. O nosso primeiro companheiro de viagem é o Bem Aventurado Antoine Chevrier, um padre diocesano de Lyon, na França, no tempo do Cura d’Ars (1826-1879). Ele foi fundador do Instituto do Prado, uma organização para padres diocesanos que vivem nos meios populares. Outro companheiro de nossa viagem será o nosso querido Bem Aventurado Charles de Foucauld (1858-1916), bem mais conhecido que o Padre Chevrier. As intuições de ambos são bastante semelhantes. Elas nos ajudam a perceber um tipo de padre que a Igreja em nossos tempos deseja e que o nosso povo precisa. Temos, ainda, mais um: Padre José Kentenich (1885-1968), fundador da Obra de Schoenstatt, que muito me ajudou, ao longo da minha vida ministerial, a ter uma relação mais profunda com Maria, a fazer aliança com ela e junto com ela, a viver em aliança com Jesus , seu Filho. E não podemos esquecer Chiara Lubich (1920-2008). Chiara foi, talvez, uma das mulheres mais importantes da Igreja no último século. Suas intuições marcaram profundamente a vida das novas gerações e são atualíssimas para os nossos dias.
5.      Talvez fique a impressão de que eu esteja fazendo uma certa “salada de frutas”, com tanta gente de diferentes caminhos espirituais. Porém, gosto de utilizar a imagem de um mosaico, onde uma peça se encaixa perfeitamente na outra, mostrando, assim, uma linda imagem. Dom Helder Câmara tinha os seus companheiros de viagem que, em todas as madrugadas, nas vigílias que realizava, acompanhavam seus momentos de oração e reflexão: Jesus, Maria, o seu Anjo da Guarda, São Francisco de Assis, os papas João XXIII e Paulo VI, entre tantos outros. É importante e agradável saber que não estamos sozinhos em nossa caminhada espiritual e que, pela Comunhão dos Santos, Deus coloca conosco pessoas que se tornam nossos amigos, confidentes e intercessores. Quais são os amigos que queremos que nos acompanhem nesses dias?
6.      É importante que, neste nosso ponto de partida, animados pelo testemunho de tantas pessoas, tenhamos bastante presente o que Deus quer e o que a Igreja precisa de nós, presbíteros deste terceiro milênio, dentro da realidade latino-americana e, de modo especial, no presbitério do Rio Grande. Quando o Documento de Aparecida fala de “conversão pastoral”, ele se refere a toda a Igreja (também a nossa vida e ministério), que se deve colocar “em saída”, como insiste tanto o Papa Francisco. Isso repercute decisivamente no nosso modo de ser presbítero, uma vez que, ao olharmos para Jesus, nosso Modelo, contemplamos o Filho de Deus que saiu do seio da Trindade e se fez um de nós, para viver a nossa condição e se tornar o nosso Salvador. O Mistério da Encarnação é o grande mote para nossa vida de presbíteros. É na contemplação desse Mistério, que se dá no Presépio/Nazaré, no Calvário e na Eucaristia que encontramos a mística para a nossa vida e ministério. Contemplando Jesus nesses momentos-chave, nós poderemos fazer a nossa revisão de vida e refazer nossas opções primordiais, que irão guiar a nossa vida presbiteral.
7.  Quando eu fiz o Cursilho, em maio de 1991, o que mais me chamou a atenção foi o desafio de fazer o “filme da vida”, na primeira noite. Éramos convidados, antes de dormir, na primeira noite do Curso, a fazer passar pela nossa memória toda a nossa vida, com os seus momentos bons e ruins. Quais os acontecimentos da nossa vida deveriam ser sempre lembrados? E os fatos negativos? Quais cortaríamos desse filme? O que proponho, nesta noite, é fazer passar o “filme da vida da nossa vocação e do nosso sacerdócio”, dando destaque às partes mais bonitas, aos momentos mais emocionantes... Também é bom rever os momentos de dor e de dificuldades que aconteceram, as nossas infidelidades, os nossos  pecados... Que essa revisão de vida possa nos ajudar no caminho de deserto que estamos fazendo nesses dias.



[1] Ap 2,4
[2] Lc 2,52
[3] Cf. Jo 2,1-11

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